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Paróquia, entre o já e o ainda não

A vida das pessoas e das instituições passa-se num espaço de tempo em que mais domina o provisório, ainda que este, como tudo o que é humano, possa estar marcado por sinais de perenidade. O dever de avaliar e a obrigação de inovar podem e devem ter sempre lugar nas instituições e nas estruturas de serviço, pois que todas elas, em si mesmas, são provisórias. Há uma certeza, porém, que anima a vida do crente: só o amor misericordioso de Deus é definitivo e irreversível.

D. António Marcelino
2 Jun 2013

Há décadas, numa expressão vinda de fora, falava-se na necessidade de repensar a paróquia tradicional, em ordem à renovação. Esta devia ser orientada para considerar a paróquia uma comunidade de comunidades. Entre nós tiveram mais peso as dificuldades que as perspetivas novas de uma tal sugestão. Apareceram publicações diversas, mas, para a maioria, nem a curiosidade nem a preo-cupação de reflexão venceram a inércia das ideias feitas e das renovações superficiais. O tema volta agora ao de cima em congressos, em temas centrais de assembleias episcopais e na reflexão de pastoralistas de renome.
A paróquia tornou-se, ao longo do tempo, uma instituição tão importante como caduca e desadequada. Ainda é, segundo o Papa Francisco, a porta aberta mais próxima para entrar na Igreja. Pode ser também a porta fechada para muitos passam à sua frente sem entrar e sem nostalgia de tempos antes ali vividos. Escasseia na paróquia a relação interpessoal, tornou-se um pequeno feudo clerical, uma estação de serviço, uma estrutura rural incapaz de entender a civilização urbana que lhe entrou portas a dentro sem pedir licença. Em muitos casos nada tem de comunidade, porque foi perdendo a vida e se habituou a viver mais de leis e de normas, que de amor evangélico e de compromisso apostólico.
Ser comunidade de pessoas e gerar comunidade exige vida. Integrar comunidades diversas exige liderança respeitadora e criativa. Nada do que é vida se faz por decreto. Nasce sempre de um processo com raízes, cresce com sentido e rumo, exprime-se na riqueza dos seus objetivos, na coesão e nos laços de comunhão que suscita. Assim a paróquia, comunidade de crentes.
Quando se fala de comunidade de comunidades, não se sublinha apenas uma simples exigência sociológica, nem uma denúncia de um território que já não delimita nada. É resposta a estas exigências promover e refazer as relações primárias com pessoas iguais que se conhecem e se estimam, comprometer-se nos mesmos objetivos e prosseguir no seu processo de crescimento, por via de uma coesão forte e construtiva, alimentada na mesma fonte da vida.
Aqui e ali vai-se recuperando, de maneira lenta e nem em todas as paróquias, o sentido comunitário com lugar para Palavra que inicia e alimenta a fé, para a celebração festiva da Eucarística dominical, para o serviço aos outros, visível no acolhimento e na caridade. Parece pouco esperançosa e válida a pretendida renovação feita à base da referência territorial, da multiplicação das missas, da pouca atenção ao acolhimento e ao serviço da Palavra, da ausência de propostas apostólicas, da dispensa dos leigos para avaliar o que se faz e pensar novos caminhos. Aparece como mais urgente ajudar as diminutas populações a tornarem-se comunidades de pessoas, dar dimensão eclesial aos grupos apostólicos e promover a sua abertura, olhar de modo novo as paróquias dos meios urbanos, exorcizando o espírito de individualismo e de concorrência, criar fermento ativo que levede a massa amorfa e lhe dê forma evangélica e eclesial. Nada disto, porém, é possível sem que os responsáveis acordem, olhem a vida, reflitam, se convertam pastoralmente. E, por fim, se decidam, em comunhão, fazer, de modo orgânico, um trabalho pastoral de conjunto. Sem que os responsáveis sejam comunidade, não é possível que se gerem comunidades.




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