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Escutar as crianças

Uma vez por ano, como ontem foi possível observar, diversos meios de comunicação social multiplicam o espaço concedido às crianças. Nuns casos, se a angariação publicitária tiver corrido bem, para as persuadir a comprar qualquer coisa; noutros, para lhes dar voz. Assim se cumpre, de um modo ou doutro, o ritual de celebração do Dia Mundial da Criança. Diversas autarquias também assinalam a data, o que, não rara vezes, apenas visa aumentar o capital de notoriedade ou de simpatia dos políticos locais, que nem durante um dia simulam um resquício de interesse em escutar o que os mais novos têm a dizer sobre os municípios que governam. É pena. Qualquer localidade que seja boa para as crianças é boa para todos.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
2 Jun 2013

“As crianças entre os quatro e os doze anos podem ajudar a formular políticas públicas?”, perguntava na quinta-feira passada a revista brasileira online PontoCom. A resposta não comportava hesitação: “Não só podem, como devem”. A dúvida e a certeza introduziam a apresentação do Projecto Criança Pequena em Foco, promovido pelo Centro de Criação de Imagem Popular (CECIP), que, durante o ano passado, dinamizou vários espaços para que crianças do Rio de Janeiro pudessem retratar as suas comunidades e identificar as respectivas necessidades, prestando, assim, um inestimável contributo para a construção de boas políticas públicas.
Uma publicação, disponível online, intitulada “Vamos ouvir as crianças?”, dá conta do trabalho realizado e do seu carácter exemplar. A coordenadora da iniciativa, Moa-
na Van de Beuque, citada pela revista PontoCom, enquadra o projecto no âmbito do programa Cidade Amiga da Criança da UNICEF, que defende que o respeito pelos direitos das crianças nas cidades passa por incluir a sua participação no planeamento e na execução das acções que a elas se destinam. “Vamos ouvir as crianças?” apresenta-se, ao mesmo tempo, como um convite endereçado a educadores, cientistas sociais, arquitectos, urbanistas e outros profissionais, para que escutem as opiniões e os desejos das crianças e para que os integrem na elaboração das políticas públicas e na criação de projectos de intervenção em infra-estruturas e em equipamentos urbanos para os mais novos.
O empreendimento supõe, evidentemente, que se acredite que as crianças são capazes de agir e de transformar os espaços em que vivem. Esta perspectiva, explica o CECIP, muda a concepção tradicional, que considera as crianças como seres passivos, sem opinião, ideias ou vontade próprias, que devem aguardar que chegue o momento, no futuro distante, para se tornarem cidadãos, altura em que poderão ter uma participação activa na vida cívica. Incluir a participação das crianças na construção de políticas públicas e no planeamento urbano é, pois, como dizem os promotores deste projecto de auscultação, um grande desafio.
O Projecto Criança Pequena em Foco fez com que as crianças entrassem em contacto com diferentes culturas, além de reflectirem sobre o lugar onde moram e o seu modo de vida. Conhecer a relação das crianças com a comunidade onde vivem e a forma como se relacionam com os espaços, foi o objectivo seguinte. O aprofundamento deste aspecto permitiu, com o auxílio de um jogo, conhecer e compreender a perspectiva das crianças sobre os caminhos que percorrem no seu dia-a-dia e sobre as vivências boas e más que experimentam quando estão fora de casa.
O momento seguinte passou por entender o universo das brincadeiras infantis e a forma como as crianças se apropriam dos espaços da comunidade para os seus encontros sociais e as suas actividades recreativas. Depois, foi possível produzir com as crianças um mapa contendo os lugares significativos para elas, como, por exemplo, os espaços onde moram, circulam, estudam ou brincam. Este mapa sinaliza, igualmente, os sítios onde elas não podem ou não costumam ir.
A realização de uma nova actividade serviu para compreender o que pensam as crianças sobre as mudanças que ocorreram ao longo do tempo no lugar onde moram, em que medida elas modificam o seu quotidiano e trazem outras perspectivas de futuro. A ocasião era chegada para promover um debate entre as crianças sobre os problemas e as coisas boas do sítio em que vivem, e construir conjuntamente propostas de mudança”. A realização de um jornal vídeo, já num momento final, concorreu para incentivar o protagonismo das crianças na denúncia dos problemas da comunidade.
O Projecto Criança Pequena em Foco testemunha um interesse em escutar as crianças e em aproveitar os seus contributos para melhorar a qualidade da vida em comum. Idêntico empenho tem-se revelado assaz proveitoso em municípios de múltiplos cantos do mundo, onde a cidadania não anda propriamente muito atrasada e o bem geral não se encontra prisioneiro dos interesses de muito poucos.




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