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Um olhar em redor

Início esta minha crónica lembrando que após a consolidação da democracia que temos, já lá vão cerca de quatro décadas volvidas sobre o 25 de Abril, descontando os primeiros anos que, como se sabe, foram assaz turbulentos (só quem os viveu!), e sendo certo que quatro décadas não representam sequer um segundo face à eternidade, é no entanto muito tempo na vida de um povo, pelo que, muitos dos governantes que temos tido de então para cá apenas se distinguiram por demonstrarem, a cada passo, a sua exoberante incompetência, podendo concluir-se que, salvo raras excepções, foi a mediocridade generalizada e triunfante que, revezando-se entre si, desperdiçou não apenas todo esse tempo mas, igualmente, as inúmeras oportunidades de ordem vária que a União Europeia (então coesa e solidária) nos concedeu, incluindo fundos avultadíssimos, tudo malbaratado num delírio colectivo de grandeza e abundância que, inevitavelmente, acabaria por nos conduzir a esta deprimente e humilhante situação actual.

Joaquim Serafim Rodrigues
1 Jun 2013

Esta síntese retrospectiva serve, ou permite-nos, estabelecer como que uma ligação entre esse passado sem dúvida precursor da crise em que o nosso país mergulhou, mesmo tendo em consideração todos aqueles factores externos desfavoráveis mas previsíveis (uma União Europeia que segrega economicamente os países ditos meridionais), sem que nenhum desses governantes, pior ainda os actuais, demonstrassem capacidade política para se imporem, minorando os efeitos devastadores dessas mesmas condições adversas a que todos estamos agora sujeitos.
Mas não. Submissos às imposições da troika (ou da chanceler alemã Angela Merkel?) governam de costas voltadas para o país cuja realidade, roçando a tragédia, ignoram por completo ou, pior ainda, fingem desconhecer.
Vejamos o caos nunca dantes sonhado sequer: nenhum dos principais membros do Governo
actual, primeiro-ministro incluído, se atreve a sair à rua olhando o povo olhos nos olhos, auscultando os seus anseios ou, mais apropriado talvez, enfrentando a sua insatisfação, os seus desesperos. Saem à rua, sim, mas sob uma forte escolta de segurança e, vaiados, ouvindo os insultos mais torpes (que não apoio e nada resolvem) entram a passo rápido naqueles locais onde as suas funções os obrigam a ir, apertados entre os seguranças, quase espremidos, submersos, e saem rapidamente também sem serem vistos, pela “porta do cavalo”…
Alguns deles, mesmo em recintos fechados, num qualquer colóquio ou conferência, tentando explicar o inexplicável, numa simples apresentação de um livro supostamente importante, não o conseguem fazer, interrompidos pelas gargalhadas provocatórias de alguns grupos hostis que, antes de serem retirados da sala, gritam a plenos pulmões “demissão, demissão”!
Nunca tal coisa foi vista mesmo em relação àqueles governos que não colhiam a simpatia da população em geral, e foram vários. Mas é evidente que esta coligação já deu o que tinha a dar e mantém-se por assim dizer no “fio da navalha” (passe a expressão) já que uma intervenção do Chefe do Estado, mais do que justificada, não é previsível de todo. Por muito menos, Jorge Sampaio, então ocupante do Palácio de Belém, provocou eleições antecipadas, depois de ter permitido que Durão Barroso se passasse para Bruxelas, antes de concluir como lhe competia o seu mandato à frente do Governo. Mas são estes os políticos que nos têm cabido em sorte: uns propiciam o aparecimento de um José Sócrates (actor consumado que o nosso teatro desperdiçou); outros esperam talvez, quem sabe?, que a coligação já tão desunida se desfaça por si mesma…
E por hoje é só, prezado leitor.




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