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Premir o gatilho

Não ouvi o anúncio, mas foi-me dito que as medidas fiscais que o Governo decidiu no final da semana passada – a super redução da taxa de IRC – eram como um “gatilho” da economia, no sentido de que farão disparar o investimento, o emprego e a economia. Estou convencido de que não será o caso. Considero-as uma minudência comparada com os escombros que se estendem já, transversalmente, por todo o país. São uma insignificância se considerarmos que quem quer premir o gatilho vai descarregar, ao mesmo tempo, sobre o mesmo território, um conjunto de bombas de destruição massiva – fala-se em 4,8 mil milhões de euros – sobre a população, ora um pouco indiscriminadamente, ora cirurgicamente, deixando de fora poderosos interesses, mas cujos efeitos destrutivos perdurarão por muito tempo, quiçá uma geração.

Luís Martins
28 Mai 2013

O país está hoje muito pior do que estava em meados de 2011. Muitos o têm dito e as estatísticas oficiais confirmam-no claramente. A economia está à beira do colapso e o desemprego – o melhor indicador do estado da economia de um país – supera todas as previsões, mas para pior. A dose de austeridade imposta por Passos Coelho e Paulo Portas foi incomparavelmente superior à prometida. Lembram–se de Passos Coelho pedir desculpas pelas primeiras medidas de austeridade que anunciou?

Apesar disso, o Governo actual tem uma narrativa diferente. Diz-
-nos que tudo vai bem, que se recomenda o ajustamento português. Passos e Portas devem estar a governar noutra dimensão. Só pode ser. Aí até pode haver resultados positivos. Por aqui, pela nossa dimensão, que é a das pessoas e das empresas, não. Pelo contrário. Vemos é resultados negativos seguidos de outros com o mesmo sinal. Nada está a dar certo como nos disseram que ia acontecer. Lembram-se de nos terem prometido prosperidade?

O anúncio das novas medidas para a economia e o crescimento, o tal gatilho, não convencem. Não é com uns tiritos que se resolvem os problemas. Manejar uma arma precisa de habilidade e destreza para acertar no alvo e munição bastante para haver poder de fogo, o que julgo não haver. Além disso, o poder de fogo de algumas espingardas, mesmo com boas munições, será sempre menor do que uma pequena bomba lançada do alto. Acontece que as bombas anunciadas serão poderosas. Num e noutro caso é preciso estar preparado para o coice. O Governo não está.

Para mais, o que foi apresentado não passa de uma operação de marketing, tal qual um anúncio publicitário, relevando e exagerando os aspectos positivos do produto e ignorando ou escondendo os negativos. O tiro dado há dias foi de pólvora seca. Não produziu nenhum efeito que não uma nuvem de fumo para distrair desatentos e pouco avisados. As bombas que se seguirão serão muito mais poderosas e potentes e devastarão mesmo. A economia aprofundará ainda mais o seu caminho recessivo. Não acredito que o gatilho do ministro tenha outros efeitos, muito menos defensivos.

O primeiro-ministro sabe que faltou com o que prometeu. Sabe que as armas e os gatilhos assinalados no final da semana transacta não servirão o objectivo de nada. E sabe também que não representa já o povo que o elegeu. Cumpre um calendário – o da legislatura –, mas não representa já quem o colocou no lugar que ocupa. É hora de novo Governo que possa reparar a devastação, com legitimação bastante para fazer o que tem de ser feito. O actual Governo já não tem essa legitimidade. Há muito que não a tem. Não tem futuro nem tem condições de dar futuro digno ao país. Tenho para mim que a situação actual é mais prejudicial ao país do que o recurso a novas eleições. Seria, pelo menos, mais democrático e legítimo. O Governo afunda-se e com ele todos nós. Haja um comandante que tome a decisão, que prima o gatilho (não o do ministro, mas o dele) ou, na ausência deste, que o capitão assuma as suas responsabilidades. Há, hoje, razões de oportunidade para se ouvir o povo. Da outra vez não veio mal a este mundo, nem a Portugal. Antes pelo contrário.




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