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Fábricas de fazer fortunas

As cidades vão crescendo e se desenvolvendo ao ritmo que lhes imprime o homem. E é para esse mesmo homem que elas deveriam estar voltadas, por obrigação e dever daqueles que, uma vez eleitos, as dirigem e organizam, como parte de um país, a quem deveriam prestar contas. Com a implementação do tão ansiado “poder autárquico em Portugal”, sem terem sido criados mecanismos claros de controlo no desempenho dos mandatos dos seus edis, as autarquias foram-se transformando como que coisa sua, dos seus familiares, amigos e dos partidos políticos que os apoiam.

Narciso Mendes
28 Mai 2013

Daí, que certas cidades se tenham transformado em centros de negócios desses clãs e das clientelas que passaram a orbitar em torno das suas Câmaras Municipais, autênticas “fábricas de fazer fortunas” onde, através da especulação e transacções imobiliárias, procuram colher os dividendos e enriquecer ilicitamente. 
 Há cidades que foram entregues a autênticos caciques, que as têm gerido com prepotência, tornando-as impeditivas para que os seus cidadãos participem no seu desenvolvimento e nos seus destinos, a fim de nelas poderem intervir, de forma cívica, no que às suas transformações, alterações e edificações de maior vulto diz respeito. Como seria o caso da nomea-
ção de historiadores, arqueólogos, paisagistas e urbanistas, de confiança, para darem o seu parecer sobre tudo aquilo que faz as pessoas refluir às suas recordações, como uma esponja que se embebe e dilata fazendo escorrer o passado. Como quem lê nas linhas da mão o significado de cada rua, monumento, escadaria ou pedras da calçada, (pormenores de inestimável valor turístico).
A forma e o lugar que ocupam nas cidades, os edifícios públicos e os templos; o traçado das suas ruas, praças e avenidas; as suas fontes, os seus repuxos, bem como o designe do seu casario envolvente indicarão, a quem as visita, o grau cultural de inteligência e de bom gosto de quem a elas preside. E tal como as pegadas na savana indicam a passagem de um animal, também nas cidades o espírito criativo do homem, expresso em cada obra sua, nos revela quem por ela transitou. Da mesma forma, as cidades que não preservam os seus parques, jardins e arvoredo sem terem em conta a natureza que as faz respirar; sem um rio límpido e transparente que as percorra como sinal de vida e respeito pelo criador, ostentam a ignorância e o desprezo ambiental de quem dirige os seus destinos, tornando-as moribundas no futuro. 
As cidades que querem ter futuro terão de ter alguém que as democratize com uma visão de horizontes alargados, tratando os seus munícipes com equidade imparcialidade e respeito. Com Presidentes de Câmara sem interesses mesquinhos, que não promovam jogadas por debaixo da mesa para satisfazer clientelas partidárias ou amigalhaços. Edis empenhados, com os seus concidadãos, no debate sobre as decisões acerca das intervenções de fundo, que impliquem a requalificação da sua monumentalidade, a fim de se não cometerem autênticos sacrilégios como os que estão à vista em muitas das cidades do nosso país. Que não permitam estranhas e nublosas transacções comparáveis, em muitos casos, a crimes de lesa pátria.
Ora o que temos tido, no regime, são alguns autarcas que, como abutres, passam, debicam e desaparecendo de cena, em breves anos, deixarão um rasto de amálgamas de betão e cimento, por implosões comparáveis às das torres do Bairro do Aleixo, no Porto. Em cidades, cujas sedes municipais estão, há longos anos, infestadas de ninhos de larvas e de caruncho que escavam as suas finanças e corroem o espírito de serviço autárquico.
Por tudo isto, é legítimo sonharmos com um virar de página nas cidades, em cujas prisões se deverão abrir alas para receber todos aqueles que, um dia, por sentença de uma nova Justiça, credível e célere, dê como provadas as suas “matreiras rapinices”, cometidas sobre um património que é de todos nós.
Utopia? Não acordem aqueles que trocaram a vida pelos seus sonhos.




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