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Influência de Nossa Senhora de Fátima

Um dia, numa discussão com alguém que o tempo que já passou me não deixa precisar, Álvaro Cunhal disse: valha-me Deus. Que me lembre nada nem ninguém ironizou a expressão uma vez que o comunista Cunhal era ateu e agnóstico. Seria uma incoerência. Todos perceberam que se tratava de um hábito de dizer ou como se diz mais eruditamente tratou-se de um lapsus loquendi. E foi isso mesmo no entender generalizado de então. Mas Cavaco Silva, ao fazer suas as palavras da mulher, disse que a aprovação da sétima avaliação da troika foi por influência de Nossa Senhora de Fátima; tocaram os sinos a rebate, ironizaram, achincalharam e não quiseram perceber que se tratava nada mais nada menos de um dito que em resumo quis dizer, foi “milagre”, isto é, foi por um triz que a troika concordou.

Paulo Fafe
27 Mai 2013

Estávamos em dia de 13 de maio e a referência à Senhora dos Pastorinhos mais não significou do que uma referência religiosa. Mas ainda que Cavaco Silva quisesse dizer o que os críticos dizem que ele disse, ainda que o Presidente da República tivesse a intenção de vincular a Senhora da Cova da Iria aos assuntos de Portugal, ele que é católico apostólico romano, tinha sido coerente e não sei onde está a relevância, nem sequer vejo ou alcanço o motivo para motejos ou estranhezas. Julgo que quando se quer dizer mal de algo ou de alguém todos os motivos são motivo. A isto chamo-lhe falta de conteúdo de assunto como quando num trabalho académico o arguente se reporta sobre os pormenores dos rodapés ou das citações. É sinal de que a tese em discussão está realmente boa tanto na forma como no conteúdo. Esta questão, assim como outros assuntos menores ou de nenhuma relevância para a vida nacional, quando ocupam as primeiras páginas dos jornais ou são abertura de televisões, fico com a sensação de que a tese está boa só peca pelos rodapés. E, no entanto, não é o que se passa. Portugal está num período negro da sua história social. À mesquinhez demonstrada, aos aproveitadores de migalhas, recomendo que procurem as grandes questões para criticar e dar sugestões para melhorar e não estejam a bombardear-nos com questiúnculas menores. Portugal merece outras questões, outra elevação de discurso político porque os portugueses merecem tudo isto e muito mais. Eu sei e muita outra gente sabe até mais que eu que o tempo se encarrega de fazer a distinção entre o discurso que é trigo e o discurso que é joio, mas não nos podemos esquecer que há quem não saiba fazer a destrinça. Veja-se como depressa se esqueceram responsabilidades de um passado recente! Passa mais depressa o dito da comadre que a pregação do abade. Ora é neste horizonte que se esbate a linguagem política. A linguagem da ironia contra Cavaco mobilizada ao  fluxo da ironia popular, desvirtua a intenção do dito e dá-lhe uma roupagem que na verdade nunca quis vestir. Desvirtuando tudo, tudo se consegue delir.




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