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A Terapia pela arte

A utilização da arte com intuitos terapêuticos é praticada desde tempos imemoriais. Porventura, é na Antiguidade Clássica que a música, poesia, teatro e escultura são usadas enquanto remédios para a alma, tanto do artista como do espectador. Segundo o entendimento de Aristóteles o teatro era, inclusivamente, um auxílio poderoso na libertação dos sentimentos e emoções (catarse), daí ter sido aconselhado, no séc. XIX, aos doentes mentais, do mesmo modo que a música e a pintura foi introduzida nos asilos e hospitais psiquiátricos.

Sofia Marques
27 Mai 2013

Para tal, muito contribuiu a experiência vivenciada pelo artista Adrian Hill que, internado num sanatório, prosseguiu as suas lides artísticas, desenhando e pintando a sua realidade quotidiana – o seu quarto, a sala de operações, os corredores do internato e os quartos de banho – como forma de libertação dos sofrimentos, medos, traumas, preocupações, sendo nesta decorrência que, na década de 40 do séc. XX, o termo arte-terapia emerge. Com a publicação do livro “Art versus Illness” em 1945, Hill persuade a Cruz Vermelha Britânica, assim como médicos nos mais diversos pontos do globo, de que a arte provoca efeitos terapêuticos, desempenhando, no seu caso particular, um papel primordial na sua convalescença.
Mas, o que se compreende por arte-terapia?
Para a Associação Americana de Arte-Terapia, esta «baseia-se na crença de que o processo criativo envolvido na actividade artística é terapêutico e enriquecedor da qualidade de vida das pessoas (…). Por meio do criar Arte e do reflectir sobre os processos e os trabalhos artísticos resultantes, as pessoas podem ampliar o conhecimento de si e dos outros, aumentar a auto-estima, lidar melhor com sintomas, stress e experiências traumáticas, desenvolver recursos físicos, cognitivos e emocionais e desfrutar do prazer vitalizador do fazer artístico».
A Associação Britânica de Arte-
-Terapia, por sua vez, refere que «o foco na Arte-Terapia é a imagem, e o processo envolve uma transacção entre o criador (paciente), o artefacto (ou objecto de arte) e o terapeuta (…) procura trazer a um nível consciente sentimentos inconscientes e depois explorá-los verbalmente».
A Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia especifica que esta consiste numa relação terapêutica na qual vigora um «recurso à imaginação, ao simbolismo e a metáforas» facilitando «a comunicação, o ensaio de relações objectais e a reorganização dos objectos internos, a expressão emocional significativa, o aprofundar do conhecimento interno, libertando a capacidade de pensar e a criatividade.».
Jean-Pierre Klein, Director da Escola de Arte-Terapia (Barcelona) considera que esta consiste num «acompanhamento de pessoas em dificuldade (psicológica, física, social ou existencial) através de suas produções artísticas, obras plásticas, sonoras, teatrais, literárias, corporais e dança (…) toma as nossas vulnerabilidades como material e procura menos desvendar os significados inconscientes das produções do que permitir ao sujeito recrear-se a si mesmo, criar-se de novo num contínuo simbólico de criação em criação. A arte-terapia é também a arte de projectar-se numa obra como mensagem enigmática em movimento e de trabalhar sobre esta obra para trabalhar sobre si mesmo».
Do exposto depreendemos, então, que a arte-terapia consiste no exercício da expressão criativa no âmbito de uma qualquer actividade artística como sejam o desenho, pintura, escultura, dança, música, drama, improvisação, escrita de poesia, diário, alicerçada numa relação triangular entre paciente (sujeito e criador), terapeuta (receptor) e obra criada (objecto de arte, criação), com o intuito de auxiliar pessoas física, psicológica ou emocionalmente doentes, designadamente:
• promover o auto-conhecimento, apreendendo e consciencializando as capacidades e as limitações (a descoberta do self)
• aumentar a auto-estima
• acordar, estimular e desenvolver a criatividade individual
• ultrapassar traumas, conflitos interiores e experiências dolorosas
• facilitar o crescimento e a cura
• fomentar a interacção com os outros
Em conclusão, a arte-terapia visa primordialmente ajudar o paciente na resolução dos conflitos interiores, nas diversas situações de desequilíbrio emocional, afectivo, mental, entre outros, de forma a provocar uma libertação das sobrecargas psíquicas, um reequilíbrio, ou, até mesmo, uma auto-reconstrução da personalidade do paciente.




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