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Promover a cultura do encontro

Há valores e objetivos, tanto na sociedade como na Igreja, que não se podem pôr em causa. Tal não acontecerá sempre que haja a preocupação do encontro dialogante, da aceitação das opiniões diferentes, da preocupação de semear paz e unidade, da não dramatização dos acontecimentos em que nem todos coincidem. Numa sociedade democrática, o bem comum, o respeito pelas diferenças, o exercício da autoridade, a igualdade de oportunidades, a prioridade aos problemas da educação, da saúde e da justiça, a atenção aos mais pobres discutem-se, mas para se encontrarem as melhores soluções.

D. António Marcelino
26 Mai 2013

Na comunidade eclesial, a unidade e a comunhão de todos os que se gastam na construção do Reino, a ação evangelizadora, a promoção vocacional, a integração ativa de todos na comunidade, a formação dos leigos para a sua missão na sociedade e na Igreja, a família com os desafios próprios, a preocupação de que cada um, jovens e adultos, encontre a sua vocação e o seu caminho, a avaliação e renovação das estruturas pastorais de serviço, a atenção cuidada aos pobres e aos que se afastaram do templo deverão ser preocupação diária para acertar propostas, valorizar e integrar na unidade de ação os diferentes carismas e contributos pessoais. Dividir, amolecer ou menosprezar o que é mais importante na vida das comunidades, civis ou religiosas, será sempre, em si mesmo, um gesto contrário à sua vida e renovação, bem como à solução dos problemas existentes. O povo, no respeito pela diferenças, deixou-
-nos, olhando a comunidade familiar e seus problemas diários, um ditado sábio: “Casa que não é ralhada, não é governada”.
A fragilidade do tecido comunitário, a tentação da opinião única, a dificuldade do diálogo construtivo, a fraqueza das lideranças, as estátuas com pés de barro, os ventos do tempo fazem-me lembrar a palavra bíblica de Paulo aos Coríntios (2 Cor 19,20): “Deus confiou-nos a palavra da reconciliação”. A palavra da reconciliação, não é a do unanimismo, mas a da riqueza reconhecida de todos, que brota das diversas fontes. 
Recordo aqui um trecho do arcebispo de Buenos Aires, hoje o Papa Francisco, que nos fala da necessidade de gerar e fomentar a “cultura do encontro”, sem a qual, diz ele, nem as pessoas, nem as famílias, nem os povos progridem. É um apelo diário a ir ao encontro do outro, quem quer que ele seja, com propósito de enriquecimento mútuo.
Apesar de vivermos num mundo sem fronteiras, ainda se encontra gente com mais vocação para abrir valas e levantar muros, que para edificar pontes, estender a mão e abrir o coração aos outros. Os preconceitos, os interesses particulares ou de grupos, o querer ser vencedor a qualquer custo, os sentimentos negativos pouco controlados dificultam o encontro construtivo entre as pessoas. Nas palavras do atual Papa Francisco, vemos um apelo à família e às outras instâncias educativas a educarem para o encontro com os outros, logo deste a infância. Apesar do que de bom já existe, não falta quem eduque mais para a competição, para o êxito passageiro e fácil, para a depressão na derrota, que para o encontro com os outros, para o respeito, o apreço, a alegria, a colaboração, a compreensão, a desculpa, o perdão.
O mundo não é uma selva de inimigos a abater, nem de indiferentismo, mas um espaço livre e de todos, onde se constrói a sociedade humana e fraterna, onde há lugar para ideias, gostos e colaborações diferentes, bem como para raças, cores e religiões diferentes. A vida e a riqueza social nascem sempre das diferenças respeitadas, aceites e assumidas. São fruto de encontros não adiados.
O “ou assim ou nada” divide e é próprio de quem não pensa, nem escuta, do cego que julga ver mais que todos, de quem não controla os sentimentos, da gente para a qual os outros, se dissentem dos seus sonhos, projetos e ideias, pouco ou nada valem.
A história recorda e guarda, nas suas páginas de ouro, os que, na sociedade, procuram o encontro e lançam pontes de reconciliação e de união. Também lá ficam, pelas piores razões, os que, desunindo e dividendo, semeiam dores escusadas.




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