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A Fúria nas Arenas

Quem não conhece através da história ou do cinema, a fúria dos Romanos no tempo dos ditadores Júlio César, Marco ou Décimo Bruto, que organizavam rituais e espetáculos nas arenas, com corpulentos gladiadores a combater até à morte, para delírio do povo? Era o sadismo total! Escravos, prisioneiros, criminosos com pena capital devidamente treinados, eram o espetáculo da morte programada, da loucura das multidões, levando-as ao êxtase e à bebedeira de excessos.

Artur Soares
24 Mai 2013

Refletindo, os gladiadores de hoje, deste início do século XXI – sem querer cognominar de criminosos o meu povo – chamam–se portugueses e têm sido empurrados para a morte – embora lentamente – jovens, reformados e os stressados do medo. As arenas de hoje chamam-se sindicatos, partidos políticos, televisões subservientes, sociedades secretas, Assembleia da República. Os Césares, os Marcos ou Décimos Brutos, são os elefantes do poder, porque pesados ao povo.
O povo de hoje também é outro: pensa menos, vive mais agitado e nada tem. E quanto à fúria que se adivinha, ao delírio previsto, o sadismo continuará: se não for por morte igual à dos gladiadores de outrora, é-o pelo suor, pelas lesões materiais e pelas guerras psicológicas nas mentirosas arenas de empresas falidas, ou nas arenas dos saqueadores organizados, permitidos e não julgados.
Apesar das trevas que inunda os políticos e o povo, já se iniciaram as festas populares que continuarão até fins de setembro do corrente ano, faltando só concluir o programa – porque está à vista – da cerimónia fúnebre de um inocente elefante – pesado ao povo, festas com tonalidades diferentes, as quais superarão o ambiente normal de anos anteriores.
E à sombra da sardinha e das barriguinhas assadas na brasa, Portugal fará da vida portuguesa liberdade, fúria, alegria pessoal e coletiva: abafar-se-á o tédio, a revolta e, autorizados pelos donos de Portugal – a troica – se oferecerá habilmente vida real, densa, acompanhada de suficiente loucura para quem já pouca capacidade revelava para refletir. E assim, o frenesim iniciar-se-á com novas arenas, onde muitos anteriores jactantes e ditadores se revelaram sem pêlos no peito.
E embora o Benfica não tenha sido campeão devido a distrações – o que prejudicou o PIB e a alegria dos portugueses, segundo o presidente da EDP – far-se-á durante o presente ano festejos ao rubro e organizar-se-ão debates, haverá conselhos e opiniões, bem como calculismos económicos, dilatação de taxas e impostos, mas vendendo-se em simultâneo o delírio com foguetes, fora e dentro dos locais arenosos…, mas modernos!
Desse modo o povo, louco por liberdade, pela necessidade de esquecer o desemprego, do desinteresse no seu patriotismo, beberá uns copos, vibrarão corpos em calças sem gola, em blusas sem frente e em saias sem forro, devido ao calor e à moda! Rirão! Gritarão e serão o povo que não era nas arenas passadas: povo de sonhos, estupefacto, para, chovendo a seguir ser o povo do silêncio, o povo real: portugueses do fado, da saudade e da lágrima contínua.
As festas dos santos populares e o toque a finados destes refinados elefantes pesados, farão com que ninguém se condene, porque primeiro vive-se e goza–se e em seguida pensa-se. Festas: o povo mobilizado, multidões cansadas, estômagos desengordurados, povo perfeito e persistente na descontração coletiva e alheios às fartas carteiras de políticos e donos de arenas (habilmente) reformados.
Tais festas e cheiros fúnebres que serão realidade – alaridos, gritaria, lenços vermelhos e brancos, bandeiras esvoaçando ao vento, as praças repletas, os prédios engalanados e os milhões de litros de álcool consumidos – farão dos ocupantes da nova arena os melhores negociadores com troikanos que ao mundo têm toskiado.
E na nova arena, farão do peixeiro, psicólogo; dos laites licenciados, especialistas; das mulheres loiras e de piercing, princesas ou baronesas; dos inexperientes, os filósofos; dos estupefatos, os mais loucos; dos jornalistas farão fêmeas a parir novas ilusões e, como é na capital que a riqueza se realiza, o resto do país trabalhará e bem lhe chegará a mentira.
Desse modo, com novos Marcos, Césares e Brutus na Arena de gladiadores sem tanga, se fará a festa do “há menos desemprego”; “recuperou-se a classe média”; “os rios e os ribeiros já correm para o mar”; “as crianças e os velhos, crescem uns mais fortes e já morrem mais felizes os outros”, etc.
Será a fúria das arenas, o delírio nas festas e vivam as festas!




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