Fotografia:
Facilitismo

Uma das doenças que afetou o nosso quotidiano foi o facilitismo. Em muitos casos viveu-se como se fosse proibido exigir. Tiraram-se às pessoas todas as palheirinhas do caminho. Baniram-se do dicionário as palavras sacrifício e exigência e deixou de se pedir esforço. Com o objetivo de evitar traumas permitiu-se que as pessoas fizessem o que queriam, quando queriam e como queriam. Premiaram-se amuos e teimosias. E as consequências estão à vista. 

Silva Araújo
23 Mai 2013

A nível escolar, o 25 de abril de 1974 começou por trazer as passagens administrativas. Depois gerou-se todo um clima onde se ficou com a impressão de que o importante era estar matriculado. A partir daí, a passagem de ano estava praticamente garantida. E porque o facilitismo gerou egoísmos, estes trouxeram as faltas de respeito e a indisciplina.
Aumentaram-se os anos de escolaridade obrigatória mas o nível de exigência decaiu. E aconteceu de haver indivíduos que, tendo a referida escolaridade, mal sabiam ler e se exprimiam corretamente com muita dificuldade.
 
O facilitismo fez com que se trabalhasse para estatísticas – para inglês ver, para dar a aparência de – que nem sempre corresponderam à verdade e produziram-se relatórios mais virtuais
do que reais.
Por facilitismo separou-se a educação do ensino e surgiu uma escola que deixou de preparar para a vida, tendo havido consideráveis lacunas a nível de formação profissional, embora em certa fase se tivessem disponibilizado para isso verbas comunitárias.
 
O facilitismo entrou no mundo laboral, onde existiu uma grande procura de emprego mas onde nem sempre se notava vontade de trabalhar. O que importava era possuir um título que desse origem a um salário, mas merecê-lo, com um trabalho dedicado, consciencioso e competente, foi coisa que nem sempre se viu. E a competitividade ficou seriamente comprometida.
A situação foi apoiada por uma atividade sindical, quanto a mim, indevidamente politizada, onde predominaram interesses ideológicos e se levaram as pessoas a reivindicarem direitos sem as motivar e consciencializar para os correlativos deveres.
Criou-se um Fundo de Desemprego, que era de aplaudir sempre que apoiava quem queria trabalhar mas se via impedido de o fazer. Por facilitismo, porém, nem sempre foi devidamente controlado e serviu para alimentar a preguiça de quem fez do desemprego profissão minimamente remunerada. Do facilitismo nasceu uma geração de subsidiodependentes.
 
O facilitismo deu origem à adoção de medidas muito populares e à produção de leis que nem sempre se cumpriam.
Por facilitismo não se chamou à ordem quem andava fora dela. Foi-se demasiado benévolo quando se deveria ter sido intransigente. Não se levantaram barreiras nem puseram limites quando o bem comum exigia que a isso se tivesse procedido.
Por facilitismo se fizeram escolhas onde o critério da competência foi subalternizado, se promoveram incompetências e se privilegiou a quantidade em detrimento da qualidade.
 
O facilitismo contaminou também alguns setores da Igreja, onde houve coisas que, por facilitismo, se deixaram de fazer. Onde houve coisas que, por facilitismo, se não fizeram como deveriam ter sido feitas. Onde houve silêncios que só o facilitismo poderia explicar.
 
A mentalidade facilitista não deixou de fazer estragos que ainda hoje é preciso ter a coragem de remediar e exige a adoção de medidas tendentes a evitar que se repita, o que nem sempre é fácil. É mais cómodo descer do que subir. É mais fácil conquistar simpatias adoçando ou ignorando exigências, dando cobertura ao vale-tudo, andar de cedência em cedência, do que ter a coragem de dizer o que deve ser dito, a quem, onde e quando.




Notícias relacionadas


Scroll Up