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As vias do amor e o social

O ponto de partida do amor, que inunda de alegria e fortalece a vida do dia a dia, por nós construída, emana da nossa concreta e real natureza. Toda esta natureza está para lá do tempo, do espaço e das irrequietas mudanças. O seu autêntico amor permanece sempre autónomo, livre e responsável. Este amor, imanente à nossa natureza, é uma dádiva do poder criativo, do amor e da sabedoria de Deus. Esta dádiva leva-nos, através das dúvidas, do ceticismo e dos questionamentos, para a consciência da realidade concreta do ser de Deus transcendente. Este amor imanente desperta a ânsia de nos projetarmos, com celeridade, na fonte do amor e da sabedoria divinos.

Benjamim Araújo
22 Mai 2013

Quanto à emanação deste amor natural, vou distinguir nele duas vias: a transitiva e a transcendente. Pela via transitiva este amor, simples e sincero, vai ao encontro do amor, que junca a nossa vida de todos os dias, ao abrir-se-lhe em carradas fecundas de verdade, de autenticidade, autonomia, liberdade e de responsabilidade.
O amor, que saltita da vida, aqui e agora, é contingente, é frágil e periclitante. É um amor que tem o seu fado bem pesado: andar às costas com o seu contrário. Contudo, este amor não deixa de ser manifestação do amor autêntico, estável e permanente da nossa profunda natureza. Como tal, implora-lhe conexão e sintonia. Implora a tensão dialética entre ciência e sabedoria, em ordem ao enriquecimento humano.
Pela via transcendente, este amor estável e permanente vai ao encontro do amor divino e aí explode e dissolve-se.
Até o amor, síntese das uniões sensoriais, síntese da mente e do coração, mesmo o impetuoso e vulcânico amor erótico, quando filtrado pelas redes do cândido amor da autêntica natureza, se torna, compassiva e afetuosamente verdadeiro, autónomo, livre e responsável. Quanto ao amor erótico, não sei se Freud se apercebeu desta faceta intrínseca do sexo, regressar à fonte original do amor, à fonte da paz, felicidade, prazer e harmonia com o seu todo. Não sei se os psicanalistas e psiquiatras alinham nesta visão; quanto a mim, o problema coloca-se sempre em estabelecer a sintonia e a conexão entre a ciência biopsíquica e a sabedoria. É o grito da humanização.
O amor verdadeiro é autónomo e livre. Qual o significado desta afirmação? Por amor autónomo, entendo o amor que é senhor de si mesmo. É o amor que não anda a soldo dos amores presos aos grilhões da existência, dos amores motivacionais (mentais e sentimentais), desgarrados do amor do ser autêntico. É o amor que não se deixa influenciar, vergar, manipular e instrumentalizar por ódios e ressentimentos. O amor é livre quando, ao movimentar-se em todas as vertentes existenciais, regressa e une-se, imperativamente, à sua verdadeira e natural fonte (a natureza autêntica).
Relativamente ao amor social, o que me apraz afirmar? Afirmo que o amor social é uma energia vital, que tem a sua génese no solo íntimo do inviolável e autêntico ser, o ser ôntico. Este amor, goza então dos atributos, pérolas do ser, na plenitude da sua constituição metafísica. Nesta constituição, o ser é uno na sua espiritualidade corporalizada; é uno nos atributos de vida, paz, felicidade, verdade, justiça, união? Todos estes atributos universais são, naturalmente, apanágio das sociedades manifestadoras, no meio ambiente, deste amor social sem ruturas, sem exclusões ou humilhações.
Este natural amor social é, em si, na sua verdade, autonomia e liberdade, a prova real e decisiva de que a Bíblia, as Escrituras, a revelação judaica e a doutrina cristã devem, por isso, ser acolhidas em festa por nós. O amor social, implícito na sociedade, supera a vida económica, política, religiosa, a cultura e todo o meio ambiente. É um amor que não deve ser instrumentalizado, nem escravizado. Todas as forças têm de girar à volta deste sol fecundo que é o amor social.




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