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A praga dos comentadores

Ser comentador, sobretudo político ou desportivo, pegou moda. E as televisões, então, apostam no recrutamento de comentadores como a galinha dos ovos de ouro das audiências e, consequentemente, da angariação de publicidade.Pagos a peso de ouro e à peça, falam de tudo, têm soluções para tudo e afinam sempre pelo diapasão de quem lhes paga para bater a concorrência. E, como os tempos que correm férteis são em matéria opinativa, não é por acaso que em cada português haja um treinador de bancada ou um político de palanque.

Dinis Salgado
22 Mai 2013

Vai daí, conhecendo bem os patrões da comunicação social esta idiossincrasia lusitana, é só dar-lhes corda e tempo de antena que o êxito é canja. E, como a primeira regra da concorrência é surpreender pelo insólito, aposta-se no recrutamento dos mais estapafúrdios comentadores, desde que provoquem impacto e controvérsia, como recentemente aconteceu com a chamada de José Sócrates para a televisão pública.
Por isso, é que esta saga de comentadores depressa se transformou numa praga nacional. E se houve as sete pragas do Egito (a peste nos animais, as rãs, a chuva de pedras, os gafanhotos, a morte dos primogénitos, as moscas e as águas do Nilo empestadas pela morte dos peixes) que como calamidade caíram sobre os egípcios, obrigando-os, assim, a deixar partir o povo israelita, vítima de cativeiro, esta dos comentadores maior flagelo ainda representa. E, com a prática da alcoviteirice, do bota-abaixo, do lavar de roupa suja, até parece que o país transformado está num enorme lavadouro público.
Depois, os comentadores, como exímios vendedores de banha de cobra e autênticas picaretas falantes, manipulam, endoutrinam e intoxicam. E, porque dotados de um invulgar poder de comunicação e persuasão, facilmente seguram as audiências e, como a cultura do povo é pouco mais que nenhuma, ele come sem mastigar o que tais comentadores lhe impingem.
Agora, a prática de comentadores que por aí abunda transformada está na regra do mexerico e do maldizer, com as temáticas políticas e governativas como prato mais forte. E, como longe andam os comentários históricos, literários, filosóficos, artísticos e jurídicos, o serviço que as televisões, assim, prestam aos espectadores pouco mais é que medíocre e inútil.
Todavia, não é, deste modo, que se informa, esclarece, forma e se ajuda a crescer um povo, ainda em estado embrionário de literacia e, muito menos, abrindo-lhe os horizontes da modernidade, da solidariedade, da tolerância, do altruísmo, da liberdade e da verdade que são, obviamente, valores fundamentais de uma vivência democrática participativa e ativa.
Pena é que a força que estes comentadores têm na língua não possa ser aproveitada na produção de energia eólica, pois assim, resolvido tínhamos o problema energético nacional.
Então, até de hoje a oito.




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