Fotografia:
Refletindo sobre um presságio

No passado fim de semana, durante a apresentação do candidato do Partido Socialista à Câmara Municipal de Mangualde, António José Seguro referiu que Portugal caminha para “uma crise de regime”, explicando que muitos portugueses estão desencantados com a política, porque não acreditam que esta lhes resolva os problemas. Na mesma ocasião, fez um conjunto de afirmações tentando chamar a si a responsabilidade de renovar essa confiança perdida.

J. M. Gonçalves de Oliveira
21 Mai 2013

A afirmação do secretário-geral do maior partido da oposição, não sendo mais do que a assunção pública de um murmúrio cada vez mais sussurrado por gente anónima, vinda de quem vem, é merecedora de reflexão.
Ao longo dos anos vividos em democracia, o povo português tem assistido a uma alternância no poder, em que os partidos que o foram ocupando cometeram, frequentemente, os mesmos erros, idênticas omissões e não raras vezes com iguais vaidades. A estes defeitos, acresce a prolífera ação legislativa que limita, confunde, impede e, assim, é profundamente castradora da iniciativa e da ação criadora. A morosidade da nossa administração e a lentidão da Justiça são outras razões que justificam o atraso que nos afasta dos países mais desenvolvidos. Porém, se formos capazes de imergir mais fundo na busca das origens que nos fizeram chegar ao estado em que nos encontramos, não será difícil descobrir mais fundamentos para a situação de inércia que paralisa a economia há mais de uma década. Não estaremos longe da verdade, se afirmarmos que muita desta inatividade resulta de um complexo que nos leva a exigir de nós próprios o que não somos e a gastar o que não temos. Fazendo vida de ricos, fomos empobrecendo irresponsavelmente, deixando de fazer um correto e genuíno juízo de quem nos foi governando.
Não é esta a realidade?!
Não é verdade que produzimos leis em abundância, muitas delas consideradas das mais avançadas do mundo, perfeitamente desadaptadas às condições de vida e do sentir do nosso povo? Não é verdade que somos dos primeiros a transferir para a legislação interna as diretivas da União Europeia sem aquilatar da sua aplicabilidade e sem avaliar as consequências para os cidadãos e as empresas nacionais? Não é verdade que, na ânsia de uma desmesurada modernidade, tantas vezes exigimos para nós o que outros países, bem mais ricos e avançados, não impõem dentro das suas fronteiras? Os exemplos, que ilustram estas e muitas outras questões, são largamente conhecidos. Quem não recordará as exigências com que, ainda há pouco tempo, atuavam os agentes da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE)? Quem não conhece as teias burocráticas para obter alguma licença ou tratar da autorização para um qualquer projeto? Quem não sabe o rol de ninharias que é necessário ultrapassar para conseguir abrir um pequeno negócio?
Entre muitos outros, em que o compadrio assume foros de endemia, estou certo que estes são relevantes causas do nosso escasso desenvolvimento e os principais responsáveis pela crise a que chegamos. São atavismos que refreiam a iniciativa do povo e dos quais o regime democrático não se soube libertar. Por isso, quando leio as palavras de António José Seguro, augurando “uma crise de regime” não resisto a procurar os motivos para o seu tremendo desabafo.
Confinar as bases desta confissão à ação do atual governo até poderá ser partidariamente útil para quem a produz, mas nunca será uma análise profunda, imparcial e objetiva das verdadeiras origens de tanto desalento. Todos os partidos do chamado arco governativo, obviamente uns mais do que outros, foram incapazes de corrigir os erros que têm corroído o regime saído da Revolução de Abril. É tempo de todos darem as mãos para inverterem um trajeto que, a não ser corrigido, pode muito bem convergir na concretização daquele terrível presságio. Não seria inédito, mas de consequências desconhecidas e previsivelmente bem mais dolorosas.




Notícias relacionadas


Scroll Up