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Às avessas

No momento em que escrevo ainda não se reuniu o Conselho de Estado para falar de Portugal pós-troika. Falar disso agora – estamos a mais de um ano dos representantes dos credores se desinstalarem do país – faria sentido se o tempo presente estivesse resolvido ou, pelo menos, orientado. Mas, não está. Antes de chegarmos a esse ponto, muito há-de ainda acontecer. A não ser que o assunto não seja o anunciado.

Luís Martins
21 Mai 2013

Por agora, o Governo gere às avessas. Há austeridade, não há crescimento. Uma fixação exacerbada nos cortes – Portas anda até preocupado! – e assim não é possível “mudar”. Daí que o resultado das políticas seguidas esteja a ser um verdadeiro descalabro. O défice orçamental era para ficar nos 3%, mas será, na melhor das hipóteses, de 5,5%. A taxa de desemprego não ultrapassaria os 12,4%, no entanto, chegará facilmente aos 18,2%. O consumo privado cairia 0,4% este ano, mas afundará mais de 3%. As exportações – o às de trunfo para a recuperação do país –, deveriam crescer 6,5%, no entanto, não irão além dos 0,9%. Teimosamente, o Executivo afirmava que o PIB cresceria 1,2%, mas cairá, afinal, mais 2,3% a acrescentar aos 3,2% de 2012. Também a dívida pública atingiria 108,6% do PIB, mas vai superar estrondosamente os 120%!

Diz-nos, quem sabe e tem experiência, que os esforços feitos até agora se tornarão inúteis se não houver consolidação na acepção correcta, isto é, a que inclui o crescimento como variável crítica. Ora, o que nos vão dizendo sistemática e sucessivamente as estatísticas oficiais é que o que está a acontecer é tudo menos crescimento. É recessão. É espiral recessiva. Ao contrário do aconselhável, continua a destruição do consumo interno, através da fiscalidade, do corte de salários e das prestações sociais, reformas e pensões incluídas. A teo-ria de que as exportações nos salvarão é uma falácia. Os estrangeiros que consumirem os produtos portugueses, esses, ficarão melhor, pois comprarão mais barato. Por cá, viverão melhor alguns (os que trabalharem nas empresas do sector exportador), mas a maioria passará mal, sem poder de compra e sem vislumbrar um futuro digno e justo.

Às avessas andam também os apoiantes dos partidos do Governo. As sondagens têm reflectido os efeitos das suas políticas. Muito menos intenções de voto no PSD e no CDS-PP e um crescimento significativo do maior partido da oposição. A acompanhar a evolução, verifica-se uma debandada de militantes no maior partido do Governo. Militantes de topo a abandonarem as fileiras e seguirem projectos da oposição ao seu partido. Em Sintra, para só citar um caso. Outros militantes tomam iniciativas mais benévolas. Maria e o Pedro, por exemplo, foram, em tempos, incondicionais seguidores militantes do actual primeiro-ministro. Hoje, estão de candeias às avessas. Debandaram do partido. A primeira disse-me que queimou o livro “Mudar” no quintal das traseiras de casa, explicando que “assim ninguém mais o ia ler [e que, aliás,] a mentira não deve ser lida”. O Pedro preferiu “suspender a militância activa e devolver o livro autografado ao autor”, dizendo que “como os caminhos ínvios não nos levarão ao país prometido, a obra não terá qualquer serventia a não ser para o autor que o poderá confrontar com a sua prática no Governo”.

Paulo Portas já percebeu que também tem andado às avessas. Esbraceja, qual náufrago a tentar salvar-se, mas sem conseguir mais do que transformar a linha de fronteira num barracão licenciado pelo Presidente. Sem se pronunciar sobre todas as medidas de “poupança” nos pensionistas – está preocupado com uma taxa de 3,5% e esquece um corte permanente de 10%? – não sairá pela porta da frente. Ao contrário do que diz, sabemos que não tem uma, nem duas, mas inúmeras palavras ao mesmo tempo. Portas, igual a si mesmo, como numa qualquer feira, em cima de um camião, microfone na mão, com discurso de propagandista a fazer meças ao Rei das Limas, sugerindo que compremos por boa uma coisa que não presta.




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