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Por que caiu no esquecimento?

No calendário religioso da Igreja Católica, passados 40 dias após a Páscoa comemora-se a festa da Ascensão, festa que nalgumas terras se chamava Quinta-Feira de Espiga, uma referência à antiga tradição da festa da Primavera, anterior ao calendário cristão e por ele reassumida. Um facto curioso é que, apesar de ela ter sido, durante muito tempo, considerada uma das principais festas do anuário cristão, a 5.ª na ordem cronológica da narrativa da vida de Jesus, foi caindo progressivamente no esquecimento.

M. Ribeiro Fernandes
19 Mai 2013

Penso que entre as razões desse esquecimento estará seguramente uma que se relaciona com a crise por que passa, hoje, a Igreja. É que, para além dos aspectos teológicos fundamentais que a tradição da Igreja tem destacado, a festa da Ascensão exprime uma realidade íntima do ser cristão que hoje também está muito ausente.

1. Antes de se despedir visivelmente dos discípulos, pois foi apenas nesse aspecto que houve despedida, Jesus vem ter com eles e introduz um factor novo de presença, que se traduz na vivência de um novo espírito de amizade e de dinâmica de grupo: anuncia que lhes vai o seu Espírito e que, onde dois ou mais se reunirem em seu nome, ele estará no meio deles. É um sinal novo da sua presença e amizade, não um sinal institucional que possa ser controlado, mas um sinal de vida que só quem o vive poderá entender.

2. Num grupo, os líderes não se impõem, mas emergem dele. Pode-se impor um chefe, mas não um líder. Num grupo não se manda, está-se e vive-se o sentimento de presença e de partilha da amizade, que é fonte de bem-estar e de estímulo de iniciativa e de acção. O episódio dos discípulos de Emaús, acontecido por essa altura, é exemplo disso. Iam dois discípulos a falar do que tinha acontecido com Jesus e eis que, no caminho, se junta a eles uma terceira pessoa, que entra no tema da conversa.
Este acontecimento sincrónico, como diria Jung, podia parecer uma mera coincidência, mas acabou por se revelar um acontecimento significativo que veio trazer nova luz às suas vidas. Sem saberem quem era essa terceira pessoa que se juntou a eles nessa conversa, eles pressentem a presença de Jesus, mas não têm certeza. É essa presença íntima que se manifesta no coração do grupo pela intervenção do seu Espírito. Não lhes impõe nada; apenas ilumina os seus corações e estimula a sua iniciativa.
Aí é que pode estar o segredo do regresso da autonomia e da responsabilidade. Talvez o exagero de tutela de organização e de poder instituído na Igreja tenha contribuído para secar a iniciativa da amizade na fé, que é dinâmica por si mesma. Perdeu-se, na vida do cristão, a dimensão da espontaneidade e da autonomia. O excesso de regulação sempre matou a iniciativa pessoal e a dinâmica de grupo.

3. A maneira como S. Marcos descreve a cena da Ascensão é elucidativa dessa realidade básica: Jesus veio ter com eles num momento de confraternização, quando estavam reunidos numa refeição de amizade. Entra com as portas fechadas, como um corpo de energia passa através de paredes ou de portas, indiferente à resistência física desses materiais. Aparece no meio deles, o que lhes traz uma enorme alegria; conversa com eles de uma forma carinhosa e compreensiva; está com eles e envia-os pelo mundo fora a fazer novos discípulos, não sob a fórmula do poder (“ide e ensinai”), mas do testemunho (“ide e fazei novos discípulos”), que é uma realidade com uma dinâmica humana completamente diferente.

4. Independentemente da necessidade que todo o grupo tem de ter alguma forma de organização e alguma forma de liderança, há na Igreja um espaço de acção individual e em grupo que não pode ser tutelado. Faz parte da essência de ser cristão o impulso básico de acção e de amizade em nome de Jesus. Foi esse o paradigma da Igreja nascente e a alma do seu dinamismo; e foi essa a mensagem deixada na despedida da Ascensão. O regresso a essa mensagem vai obrigar a repensar muita coisa na Igreja e a própria realidade sociológica já o está a demonstrar.




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