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Parábola evangélica ultrapassada pela realidade eclesial

As palavras de Cristo nem o tempo as corrói. Desta vez, porém, guardada a mensagem mais profunda, a realidade parece ter ultrapassado a parábola do Bom Pastor. Muitos cristãos, mesmo que a percentagem não seja os 99% da parábola evangélica, vão-se afastando da comunidade paroquial e parece ficar apenas um pequeno grupo de gente convicta ou, então, de gente instalada e pouco corajosa. Uma razão para que o pastor não se contente com o trabalho de casa e parta, com os que restam, à procura dos que se afastaram, muitos deles sem aceitarem que andam ou que estão perdidos. Pelo contrário, pensando que, finalmente, se libertaram da alienação religiosa.

D. António Marcelino
19 Mai 2013

A consciência de uma realidade que não se pode iludir por muito tempo vai acordando a responsabilidade de levar a novos caminhos, onde se fale uma linguagem diferente da do templo, onde não cabe uma autoridade ralhe e domine, condene e se imponha a partir de fora. A exigência para quem sai ao encontro, como na estrada de Emaús, é ser um companheiro de viagem que surge, motivado e atento.
É verdade que não foram noventa e nove os que se afastaram, nem apenas um que ficou. Trata-se de uma parábola. As parábolas foram a forma de linguagem mais elucidativa e frequente de o Mestre dizer coisas que todos pudessem entender. No sentido de provocar desinstalação, a parábola é cheia de atualidade e eloquência.
Há muita gente iludida e a fechar os olhos ao que se passa à sua volta. Tempos lá atrás, a profissão de fé era a meta que levava adolescentes a virar costas ao templo. Muitos jovens ficam agora até ao crisma. A partir daí muitos debandaram também. Por razões religiosas ou outras, cresce o número dos adultos que metem no mesmo saco dos sentimentos a alijar tanto Deus, como a Igreja e a religião. Alguns, movidos pela recordação de seus pais ou pelo bem dos seus filhos, não perdem a memória do adro e do templo da sua terra e voltam por altura da festa, mais para a procissão que para a missa. Ou apenas porque os filhos a batizar os forçam a este regresso, normalmente inconsequente. Tudo isto, que pode parecer incoerência, tem sentido e é preciso captar este sentido para que ele penetre na vida e a possa comandar, de modo livre e motivador.
Como ir ao encontro e acolher os afastados e os que regressam ocasionalmente? Os jornais paroquiais ou regionais, as folhas distribuídas nos domingos, os encontros realizados ou procurados por parte de gente da paróquia, clérigos ou leigos, não podem hoje deixar de ter uma vertente missionária clara. Não de cariz apologético, como é óbvio, mas testemunhal. Em meios em que os católicos são minoria não faltam iniciativas para congregar, acolher, convidar com propostas adequadas. Muitas vezes sai-se do templo ou dos temas religiosos para que possam participar os que não iriam a lugares de cor religiosa. Não se pode mais programar apenas para segurar os que estão. A pastoral de conservação é cada vez menos eficiente. Não se abandonam os que vêm, nem se podem empenhar estes só às coisas do templo. Se a condição do leigo é ser cristão no mundo, passa pela formação e espiritualidade, a sua dimensão apostólica na família, na profissão, na ação social e política, no lazer e na convivência livre e alargada. É aí que se encontram os próximos e os afastados.
O Ano da Fé não é um ano para consolar os crentes. É, também, um ano gerador de inquietação. Qual o peso que têm nas preocupações missionárias da paróquia os afastados, os indiferentes, os descrentes, os membros de outras confissões religiosas, os que vivem em união de facto, os divorciados, sejam eles recasados ou não? Nenhuma paróquia se pode desviar do rumo missionário, nem alienar da realidade, mas estar consciente de que, no seu meio e à sua volta, predominam valores e modelos de vida contrários ao Evangelho.




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