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Mortos pelas nossas roupas

Quando você vai a uma loja, compra uma peça de roupa e leva outra de graça, a peça que leva de graça não ficou exactamente de graça”. Foi isto o que, há dias, disse à BBC um sindicalista do Bangladesh, falando a propósito do desabamento de um prédio de três andares, próximo de Dacca, no dia 24 de Abril, onde funcionava uma fábrica têxtil. Como o correspondente da BBC no Sudeste da Ásia, Andrew North, notava, a ocorrência que vitimou mortalmente 1127 operários veio tornar ainda mais evidente o lado obscuro da indústria de roupas internacional.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
19 Mai 2013

Mesmo que haja quem persista em não o querer ver e saber, é evidente que só é possível obter de graça peças de roupa, se elas forem fabricadas por escravos, indignamente constrangidos a trabalhar em sítios tão desprovidos de condições, que as próprias vidas não se encontram protegidas.

A Avaaz, que se apresenta como “uma comunidade de mobilização online que leva a voz da sociedade civil para a política global”, denunciou a circunstância de o recente trágico colapso seguir um padrão. “Nos últimos anos, incêndios e outros desastres tiraram milhares de vidas e deixaram outros feridos demais para poderem trabalhar. O governo de Bangladesh faz vista grossa para as péssimas condições de trabalho, permitindo que os fornecedores reduzam os custos para fazer roupas a um ritmo e preço de acordo com a expectativa dos gigantes da moda mundial. As grandes marcas dizem que monitorizam, mas os trabalhadores dizem que as empresas não são fiáveis para fazer suas próprias auditorias”.

Os 1127 operários têxteis morreram para nada?, perguntava, por seu turno, o colectivo francês Ética na Etiqueta, que junta sindicatos, associações de consumidores e Organizações Não-Governamentais. “Estes repetidos dramas poderiam ser evitados se o comércio internacional obedecesse a regras decentes”. Ética na Etiqueta afirma ainda que as multinacionais que subcontratam a fabricação dos seus produtos em países pobres poderiam empenhar-se em fazer respeitar pelo menos os direitos mínimos dos operários se a opinião pública do Ocidente e os compradores de roupa, particularmente da que tem preços mais reduzidos, tomassem cons-ciência do papel que podem desempenhar.

Ética na Etiqueta lançou uma petição (http://www.ethique-sur-etiquette.org/-Bangladesh-halte-a-l-hecatombe,77-) para que marcas como a Mango, a Benetton, a Primark, o El Corte Ingles, o Bon Marché e Loblaw, por exemplo, cujas roupas eram feitas no prédio que desabou, tomem medidas imediatas para garantir cuidados médicos urgentes aos trabalhadores que sobreviveram e tratem de indemnizar o conjunto das vítimas.

Contra a “negligência criminosa das marcas”, Ética na Etiqueta pede ainda que entre em vigor o mais rapidamente possível o Acordo para a Segurança dos Edifícios e Prevenção de Incêndios no Bangladesh elaborado pelas organizações sindicais locais e internacionais para prevenir a repetição de novos dramas. Também a Avaaz quer que esse Acordo seja imediatamente patrocinado pelo conjunto de marcas de roupas que, como a GAP, por exemplo, “lucram com o trabalho barato”. Para tal, lançou também um abaixo-assinado (http://www.avaaz.org/po/crushed_to_make_our_clothes_loc/?fp), subscrito até ontem à tarde por 962.402 pessoas.

Mas num país onde, como escrevia Pedro Bacelar de Vasconcelos no Jornal de Notícias de sexta-feira, a indústria do vestuário cresceu 10% no ano passado e representa 80% do PIB; a média dos salários ronda os 30 euros por mês; a duração do trabalho oscila entre as 50 e as 100 horas semanais; 90% dos trabalhadores são mulheres que manipulam produtos tóxicos sem máscaras e cumprem horas extraordinárias obrigatórias que não são pagas como tais; e a criação de organizações sindicais é violentamente desmotivada, a entrada em vigor do Acordo para a Segurança dos Edifícios e Prevenção de Incêndios no Bangladesh está longe de resolver o essencial.

Para regular a mundialização selvagem, impõe-se que, como reclamava na quinta-feira Antonio Manganella, da organização francesa CCFD-Terra Solidária (http://www.lavie.fr/sso/blogs/post.php?id_blog=17194&id_post=2682), os governos dos países ocidentais, países de origem de quem dá ordens, responsabilizem judicialmente as marcas. A França, diz Manganella, poderia dar o exemplo oferecendo aos operários que forem vítimas de abusos laborais nos seus países a possibilidade de recorrer aos tribunais para punir as marcas francesas que subcontrataram trabalhos no estrangeiro. “Tornando os abusos muito ‘onerosos’, as empresas ver-se-iam constrangidas a prevenir as violações de direitos”.




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