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Um olhar em redor

Por vezes sabe bem deixar que a caneta deslize livremente sobre o papel, mas contida a preceito, note-se, e não como “um cavalo à solta” (passe a expressão) em galopada fogosa, desordenada, sem obediência ao freio nem ao bridão, assim, conforme faço agora, firmando os joelhos e não dando folga às rédeas (ai, este meu passado militar em Cavalaria 7, em Belém, o picadeiro, as cargas de espada em riste através do pinhal de Benfica, parece-me que foi ontem, meu Deus!) mas, dizia, contendo possíveis impulsos daquele pequeno instrumento de trabalho, leve é certo, porém e por vezes mais pesado que enxada de cavador, pois que as palavras, uma vez proferidas, jamais alguém conseguirá trazê-las de volta.

Joaquim Serafim Rodrigues
18 Mai 2013

A presente crónica, prezado leitor, sofreu um desvio, uma alteração. Inicialmente concebida em termos de uma nova análise (mais uma…) à situação actual de crise profunda em que o nosso país mergulhou e, bem assim, ao comportamento de quem nos (des)governa, políticos miméticos por natureza (transformam-se e adaptam-se ao meio conforme as suas inclinações) anunciando uma medida e pondo em prática outra, sempre em prejuízo dos mais carenciados, a regra seguida despudoradamente até hoje, com tal desvio tenho em vista aliviar um tanto aquela carga emotiva que, julgo eu, tocou alguns ao lerem a minha crónica anterior.
Sem um rumo a seguir, entretanto, é nestas alturas que a nossa imaginação começa a voar, sem nunca esquecer a responsabilidade assumida por quem escreve para que outros leiam, demais a mais num jornal tão credenciado como este, tendo em conta igualmente as diversas preferências, sensibilidades e conhecimentos de cada um. Assim, ocorre-me de momento convidá-lo, caro leitor, a viver comigo em pensamento este devaneio musical, ajudando-o talvez a libertar-se do peso ou pressão da sua lida diária. Idealize então a cena: está num sumptuoso teatro, o palco da orquestra lá ao fundo, enquanto um murmúrio percorre a sala, agitando a plateia, prenunciando o início deste concerto imaginário. Bach, Mozart, Wagner, Beethoven, Berlioz? Não importa.
Música, arte excelsa dos sentidos! Com um gesto autoritário feito com a batuta impondo silêncio, o maestro, labita escura, abas de grilo, os braços abertos abarcando toda a orquestra, solta os metais numa arrancada brusca, fulgurante, estrepitosa e, logo após essa entrada de rompante, um outro andamento, calmo, repousante, como que nos transporta a outro mundo, mercê das intervenções nasaladas dos oboés, dessa espécie de choro saído das flautas, dos murmúrios do piano, dos soluços comoventes dos violinos, ouvindo-se ao fundo, um tanto ou quanto distantes, as notas cavas, profundas, dos contrabaixos e dos violoncelos.
E são agora visões de bosques adormecidos por entre o chilrear dos pássaros já recolhidos, enquanto uma brisa suave vai revolvendo a folhagem tombada do arvoredo. O crepúsculo acentua-se, a noite cai, por fim, consubstanciada num último suspiro, ou arquejo de toda a orquestra, enquanto o maestro recolhe finalmente a sua batuta de marfim. O concerto terminou.
Descerremos os olhos, talvez já fatigados da obscuridade em que, se calhar, não deixamos de mergulhar, embalados por tão sugestivas imagens contidas na partitura que acabamos de ouvir, tal como num sonho.
Será que consegui aquele meu enunciado propósito ao alterar o tema inicialmente previsto, caro leitor? Oxalá!




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