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Democracia singular

Apesar da democracia neste país contar já com 39 anos de vida, ainda não consegui perceber o seu conceito substantivo e político. Pensava eu, na minha ingenuidade, que democracia era o regime da liberdade de expressão, de pensamento e de ideias. Pensava eu que democracia significava justiça, igualdade de oportunidades e seriedade. Nada de oportunismos e de enriquecimentos ilícitos. Pensava eu que democracia era o regime do voto livre e consciente. Pensava eu que democracia tinha como base a responsabilidade, o rigor e a transparência.

Armindo Oliveira
18 Mai 2013

Pensava eu que democracia permitia que a alternância do poder se fizesse com toda a normalidade e com todo o respeito pelos adversários. Pensava eu que a oposição era uma força político-partidária que colocava as suas energias, as suas ideias e as suas propostas para o desenvolvimento social e para bem-estar da comunidade. Pensava eu que a democracia não permitia a pobreza e resolvia os problemas dos seus cidadãos.
Mas, final de contas, a nossa singular democracia é um regime cheio de entorses, ressabiada, interesseira e irresponsável. É um regime com muita corrupção, mentiras e nepotismo. É um regime em que os políticos gananciosos enriquecem, sem pejo e sem vergonha, à custa dos cargos públicos que ocupam ou das influências que exercem. É um regime em que os políticos estão em degradação contínua e desacreditados. Mas, pouco os incomoda!
Durante estes 39 anos de democracia, é perceptível que aprendemos pouco para podermos viver e conviver numa sociedade livre, exigente e tolerante. Os nossos comportamentos estão mais orientados para sermos “pequenos ditadores”, quando dominamos o poder e sermos simples “yes sir”, quando queremos nos aproveitar dos benefícios do poder. Estas relações tipo feudais “servo e senhor”, misturadas com os tiques salazarentos “quem não é por mim é contra mim”, tornam a nossa democracia coisa bizarra e marginal dos preceitos em vigor no mundo ocidental, em que o cidadão é respeitado na sua diferenciação ideológica, tem deveres, direitos e obrigações e é convidado a intervir na sociedade com os seus saberes e experiências.
Os exemplos que vêm de cima, do poder central e do poder autárquico, não são nada prestigiantes e pedagógicos, o que leva os cidadãos a terem uma péssima imagem dos políticos. Esta gente, “farinha do mesmo saco”, como diz o povo, nunca soube encarar com autenticidade e com respeito a confiança que o eleitor lhes confere através do voto. Uma boa parte destes políticos, que se arrasta no circuito do poder há longos anos, não passa de um estorvo e de um custo escusado para o erário público.
A democracia está num estado lastimável, sem crédito e sem chama, porque os políticos assim o desejam para se poderem manobrar nos meandros dos interesses pessoais e partidários. Se houvesse a possibilidade de se inverter o ónus da prova, muitos políticos, em particular muitos autarcas, estariam nas malhas da justiça a prestar contas dos pecados cometidos, uma vez que apresentam fortunas muitíssimo acima dos ganhos reais. Esta realidade incontornável e condenável, só existe, porque a secção da Justiça do país está paralisada e inoperante, permitindo-se que diante dos nossos olhos passem casos degradantes que qualquer leigo na matéria não tinha dúvidas de dar sentença justa. 
 Os políticos não são as vítimas, nem os bodes expiatórios do miserabilismo que vai reinando neste belo país. Eles são os únicos culpados e responsáveis pelo desastre social que está iminente. São os únicos que não fazem o seu trabalho com capacidade, eficiência e retidão. Bastavam uns breves momentos para pararem e depois pensarem e reflectirem seriamente nas suas práticas, colocarem a mão na consciência e verificarem que o caminho percorrido é triste, sem honra e sem glória.




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