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Cai-Cai

As medidas do Governo têm provocado diminuição da massa salarial sobre a qual incidem as contribuições sociais. Descaradamente – não há outro advérbio benigno para dizer isto –, pretende lançar-se nova medida sobre as pensões por causa disso. Injusto e imoral! O primeiro-ministro anunciou, Paulo Portas explicou que havia uma linha de fronteira, Passos Coelho ficou por fraco, que cedia ao CDS-PP – os pares confirmaram-lhe que era isso que tinha transparecido para o grande público –, o que o levou a fazer finalmente finca-pé do que dissera antes – que a “TSU dos pensionistas” era mesmo para ficar –, embora pouco convictamente.

Luís Martins
14 Mai 2013

Ficamos pouco esclarecidos e nada convencidos. Nem da pertinência da medida, nem da razão da perseguição a uma franja significativa da população que, depauperada ou preocupada em acolher e ajudar filhos, genros ou noras e netos, uns que perderam o emprego ou passam dificuldades por causa dos cortes nos salários ou rendimentos, outros que precisam de quem lhes compre o material escolar, lhes pague as propinas ou o simples passe de transporte. Se estas últimas frases saíram grandes e acabam com o fôlego a qualquer um, a verdade é que há quem esteja mesmo sem fôlego para solver os seus compromissos e vai ainda ficar pior com as novas medidas anunciadas. E é certo e sabido que virão outras e outras, se não for compreendido, a tempo, que sem emprego, sem consumo e sem crescimento não haverá ajustamento que chegue. As bombas de vingança continuarão a ser lançadas por cima daqueles que ainda resistirem. 

Paulo Portas prometeu arranjar uma alternativa. Mas, pelo que se sabe, não será melhor. Será, certamente, mais manhosa. Em vez de fazer atingir razoavelmente a totalidade dos reformados e pensionistas pelo explosivo, por serem muitos e não querer demasiados estragos, preferirá submeter às radiações sobretudo os últimos, mas a valer. Coisa que se veja. E nem serão os eleitores preferidos do CDS-PP, antes pelo contrário. Uma perseguição nunca assumida, mas sempre presente nas entrelinhas.

Já ninguém dá nada por Portas, como por Passos Coelho. Este, ao contrário do que prometera, força todos, à bruta, a uma austeridade sem controlo, dizendo que se trata de um ajustamento. Portas, que o apoia, tenta segurar-se, esgueirando-se por entre os estilhaços – sempre que aquele fala ao país é uma bomba de grande potência que é lançada para o meio da multidão de cidadãos – na expectativa de que ninguém o tenha visto junto, a segurar as folhas do discurso que ajudou a escrever, pulando intermitentemente para o lado da multidão, embora para fora do alcance das ondas de choque do explosivo.

Manobras e mais manobras, afirmações e desmentidos, numa desafinação que fere o ouvido e faz mal à alma. Tudo serve para limpar a água do capote e tentar passar por defensor verdadeiro dos eleitores. Mas, não se livra das consequências. Afinal de contas, tem um acordo com o partido que venceu as últimas eleições e esse, embora periclitante, continua em vigor. Cá para nós, ninguém acredita já que a coligação o seja. Talvez nunca o tenha sido. Foi e é um bloco bicéfalo, como o que nasceu antes, para pior, com os protagonistas a andarem desavindos e ambos seguirem caminhos com interesses divergentes e que não são os dos eleitores.

Para não distrair os estimados leitores, explico agora a escolha do título. A razão é simples. Desta última vez, diz-se, o Governo esteve para cair. Não caiu. Como das outras vezes, à última hora, interesses mais altos se levantaram. Alguém ou alguma coisa fez serenar os ânimos. Mas algum dia pode faltar quem segure ou quebrar-se algo importante e decisivo. A aparência, só por si, não segura nada, compõe apenas. Pode cair e às vezes cai. E há mesmo quem brinque com o assunto dizendo: “tomara que caia”. Quando faltam as alças, a ameaça pode tornar-se real. A coisa pode cair mesmo. Mas, talvez não se perdesse muito. Antes uma situação clara, a uma mentira.




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