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Uma no Crato, outra na «cratatura»

Recorda-se o leitor de ouvir falar na expressão «geração rasca»? Esta foi uma expressão usada pelo jornalista Vicente Jorge Silva em 1994 num editorial do jornal “Público” aquando das manifestações estudantis contra a então ministra da educação Manuela Ferreira Leite. Os estudantes protestavam contra as provas globais no Ensino Secundário. A expressão provocou muitas críticas e tornar-se-ia um símbolo de contestação e rivalização de valores entre gerações. A mesma expressão daria em 2011 o mote para aquela que simboliza a geração atual de recém-licenciados: «a geração à rasca» ou «geração parva» que, inspirada num tema dos “Deolinda”, pretende sincretizar a situação hoje vivida em Portugal pelos jovens licenciados, a mais qualificada de sempre, mas que no entanto se confronta com uma das maiores crises de empregabilidade.

Jorge Leitão
13 Mai 2013

“Quando dizemos que é um resultado importante o viver em democracia, dizemos também que é um resultado mínimo, porque a partir daí começa a crescer o que verdadeiramente falta” – José Saramago.
Por outro lado em 20 de agosto de 2012 José António Saraiva escrevia no semanário “Sol” um artigo de opinião intitulado “O Triunfo da Geração Rasca” argumentando que “uma das consequências mais negativas da atual crise foi estimular entre os portugueses a manifestação dos sentimentos mais baixos.”
Mas, se o articulista enaltece o alegado sucesso da geração rasca, como pode a esta ter sucedido uma geração enrascada? O que falhou? Por que razão a mais bem qualificada geração de jovens tem de levar as valências daquilo que é um sucesso educativo para o estrangeiro a custo zero e hipotecando definitivamente o futuro do próprio país? A resposta mais visível é a falta de planeamento estratégico, os poderes instalados, os grupos de pressão sócio/económicos que influenciam as decisões políticas.
Chegamos às «queimas». Só no «Enterro da Gata» em Braga serão gastos cerca de oitocentos mil euros (menos 10% do que em 2012, segundo a AAUM). É quase uma obscenidade intelectual vê-los passar no cortejo académico bêbados de felizes para chegarem a um beco sem saída.
Porém, se fizermos um estudo sobre as personalidades nacionais que mais se destacaram no mundo, quase todas só alcançaram o sucesso porque emigraram. Pense-se apenas em António Damásio. Será então esta uma fatalidade inevitável para um qualquer português?
Não sendo Portugal um país de castas como a Índia, só no período da vigência ministerial de Veiga Simão, ainda antes do 25 de Abril, se promoveu a democratização do ensino. Até aí só acedia à universidade quem pertencesse à burguesia instalada desde a República. Por isso era corrente um médico ser filho de um médico ou um jurista também ser filho de um jurista. Os casais ou se formavam dentro da própria universidade, ou através de casamentos mais ou menos conluiados entre os pais já que as mulheres só mais tardiamente se libertariam da inacessibilidade ao ensino. Por essa razão é frequente ouvirmos dizer que o casarão «tal» pertence aos herdeiros do doutor A ou do doutor B. Com o 25 de Abril abriram-se as portas a todos. A correria foi tal que houve necessidade de alargar a oferta da rede universitária. Porém emergiu uma nova classe económica, a classe média alta, proveniente de uma burguesia que sempre floresce após uma revolução social a que se deve acrescentar as orbitais partidárias. Com um setor económico/produtivo que se depauperou após a entrada na CEE, associado à deslocalização das grandes empresas por via da subida do rendimento per capita, as crises bancárias internacionais, sem investimento na criatividade e no empreendedorismo, num país exaurido de recursos, seria lógico aguardar que os lugares para quadros e técnicos formados não iriam chegar para todos.
Assim, o aumento do número de alunos por professor, o que inviabiliza desde logo uma maior aproximação individual ao aluno como preconizam J. B. Carroll e Benjamim Bloom – “Quase todos os alunos são capazes de atingir os objectivos educacionais, desde que se lhes conceda o tempo necessário e as condições de aprendizagem apropriadas”, o menosprezo pela avaliação contínua e o regresso aos exames da 4.ª classe, o retorno às aprendizagens da tabuada a martelo, a desvalorização do uso de calculadoras e das “tic”, o desprezo pelas áreas das expressões, a integração de crianças com necessidades especiais em turmas comuns sem apoio são um recuo estratégico ao passado que pretende colocar Portugal no patamar dos anos sessenta do século passado, ao tempo das castas. Talvez isso force o abandono escolar precoce e o regresso à mão-de-obra barata. Especulação? Olhem que não… olhem que não…




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