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O engenheiro e o doente hipnotizado

Estamos num tempo em que há gente que pensa que pode fazer tudo em política. Com uma condição: desde que seja por conta dos outros, porque assim não arriscam ter prejuízos pessoais. É o tempo da falta de qualidade e da responsabilidade. Perdeu-se a noção da exigência e da realidade na política. Para os partidos políticos, o que conta não é o mérito, mas o oportunismo e o golpismo dos votos para alcançar o poder. Para justificar essa incompetência, cultiva-se o reducionismo: tudo é igual, tudo é legítimo. Esqueceram-se que nem todos são iguais nem todos têm as mesmas possibilidades e que não se pode tratar como igual o que é diferente. E o povo continua a lastimar-se, mas, depois, volta a votar nos mesmos…

M. Ribeiro Fernandes
12 Mai 2013

1. O mito do igualitarismo tornou-se um obstáculo ao direito de cada um poder desenvolver as suas diferentes capacidades. Como reacção à legítima aspiração de todos a uma vida melhor, sem barreiras de classes sociais, a partir de 1974 criou–se uma mentalidade e um sistema de ensino em que todos tinham que frequentar a universidade, todos tinham que seguir a mesma via de ensino e, se tivessem dificuldades de aprendizagem, tinham de ser ajudados a consegui-lo, “custasse o que custasse”. Nem lhes passava pela cabeça que há capacidades diferentes e que, por isso, os caminhos de cada um também tinham de ser diferentes para poderem desenvolver as suas próprias capacidades. Resultado: hoje, todos lamentam o elevadíssimo desemprego jovem e repetem que a juventude de hoje tem a melhor preparação escolar, mas ninguém se interroga que ele é consequência de um ensino divorciado da realidade social e industrial.

2. E se há área de trabalho onde essa perda de exigência de qualidade se manifesta é sobretudo na política. Como não há currículo definido para o exercício de cargos políticos nem há risco de investimento de capital próprio, muitos convenceram-se que todos têm capacidade para exercer cargos políticos. E os partidos engordaram com isso, à custa do dinheiro dos impostos do povo.
É que, para arranjar um emprego por conta de outrem, o sujeito tem de mostrar aptidão; para se lançar num negócio tem que se investir capital e ser capaz de o rentabilizar; mas, para desempenhar um cargo político não é preciso nem uma coisa nem outra: se houver fracasso, o povo paga os prejuízos.
Em Portugal, é tempo de exigir que o país seja governado por gente competente. A nossa política assemelha-se àquele programa que houve, não há muito tempo, chamado Bancada Central, em que cada um opinava com a mesma facilidade sobre futebol e sobre política. E, às vezes, nem sei se era melhor ouvir a Bancada Central se a bancada política.

3. Para ilustrar esta mentalidade instalada, vou-lhes contar um caso que conheci, na área da saúde. Quando apareceu o primeiro curso de Pós-Graduação em Hipnoterapia, fui frequentá-lo. No pequeno grupo de inscritos, apareceu um engenheiro. A certa altura, ele perguntou ao Professor que orientava o curso como se fazia para acordar uma pessoa hipnotizada. A pergunta gerou curiosidade. Que tinha acontecido? Segundo contou, a engenharia dizia-lhe pouco; resolveu, então, dedicar-se a fazer hipnose, mesmo sem qualquer formação de base dos mecanismos psicológicos e arriscando provocar desarranjos psicológicos. Certo dia, tinha conseguido hipnotizar uma pessoa, mas não conseguia que ela regressasse do sono hipnótico induzido…

4. A nível político, em cada dia que passa, o povo receia cada vez mais que o país esteja entregue nas mãos de aprendizes de hipnose política que se fazem passar por terapeutas. Receberam um país doente, depois hipnotizaram-no com uma overdose de cortes e de impostos, estoiraram com a nossa débil economia, o desemprego aumenta em cada dia e não se cria emprego alternativo. Aplicaram aqui um programa que não tem nada a ver com a nossa realidade social. Resultado: agora não sabem como tirar o doente do sono da estagnação e do desemprego…  E vai daí, a cada vez que há erros de gestão política, atacam sempre os que estão mais à mão: Reformados e trabalhadores da Função Pública… esquecendo-se que as reformas são um direito de propriedade do reformado, adquirido ao longo da sua carreira contributiva, que não se pode expropriar. E que, ainda por cima, estão a servir para apoiar filhos e netos desempregados. O país anda em pânico e sem rumo. Pode isto continuar assim?




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