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Um olhar em redor

Uma pequena notícia vinda a lume no JN há poucos dias ainda provocou em mim logo a partir do seu título um irreprimível conforto moral difícil de descrever, tendo em conta esta verdadeira selva em que todos estamos envolvidos. E era este o título: EUA – Estado de Maryland aboliu a pena de morte. Seguia-se o mais importante do respectivo texto: “O Maryland aboliu ontem a pena de morte, tornando-se o 18.º dos 52 estados dos EUA a banir a pena capital. A partir de agora, a pena máxima aplicada é a prisão perpétua”.

Joaquim Serafim Rodrigues
11 Mai 2013

Faltam ainda 34 estados a seguirem-lhe o exemplo, os quais mantêm ainda tão ignominiosa disposição legal. Até quando?
O certo é que a referida notícia (não transcrevi, entretanto, a sua parte final) como que me envolveu numa onda inefável de bem-estar, invadindo todo o meu ser, em contraponto a este desapiedado Mundo, cada vez mais distante dos princípios éticos e daqueles valores supremos (e a vida humana é o maior deles todos), que quase já não contam, conclusão a que facilmente se chega, reparando em tudo aquilo que acontece à nossa volta: guerras iníquas, milhões de pessoas morrendo inocentemente de fome, de doenças incuráveis por falta de meios para as combater, ou sob as vagas e metralha que as atingem, despejada impunemente por certas potências arvoradas em polícias mundiais (EUA à frente), sem que os diferentes organismos internacionais criados justamente para impedir tudo isto possam actuar, tão desacreditados e ultrapassados estão todos eles (ONU, Tribunal Penal Internacional, que não pode julgar os criminosos de guerra americanos porque os EUA não o permitem, bem como outras organizações supostamente empenhadas em defenderem os direitos humanos).
Recupero agora as últimas linhas da mesma notícia: “Contudo, a abolição não tem efeito algum sobre os cinco condenados à pena capital ainda existentes nas prisões”. Aqui, entro em choque emocional, desvanecendo-se por completo toda aquela diáfana sensação íntima que tomara conta de mim ao ler o começo da notícia em questão!
Sei que todo o cuidado é pouco quando falamos (ou escrevemos), porque nunca se sabe como vai ser interpretado pelo nosso interlocutor (neste caso leitor) aquilo que dizemos. Porém, continuo: inadmissível, quanto a mim, que tivesse escapado às entidades responsáveis de Maryland, Governador do estado em primeiro lugar, esta oportunidade única de prestarem um inestimável e memorável serviço à humanidade em geral, ao não admitirem a retroactividade dessa mesma abolição. Considero esta falha um acto hediondo e bárbaro, que apenas vai aumentar o sofrimento, a agonia desses cinco condenados à pena capital. Ou será que todos eles deixaram de ter, perante as referidas entidades daquele estado, um mínimo de dimensão humana? Foi ou não considerado, após demorados e ponderosos estudos (tinha forçosamente de ser assim) que tal pena máxima não tinha já razão de existir? E os futuros criminosos que cairem sob a alçada da lei, pois que sempre os haverá, alguns deles condenados a prisão perpétua com certeza, serão mais dignos de consideração do que esses cinco já sem esperança, dominados ainda mais pela solidão cruel do chamado corredor da morte, destroçados pela angústia de não saberem quando virão buscá-los para os sentarem na cadeira-eléctrica ou para levarem a injecção letal, esses cinco, dizia, não serão também em parte vítimas da sociedade que os condenou? E se algum deles for inocente conforme veio a provar-se algumas vezes posteriormente à sua execução? Bastava um único caso destes para que jamais fosse aplicada, onde quer que fosse, a pena de morte.
Findo, por hoje, ainda inconformado, esperando contudo que me desculpem se de algum modo os importunei com semelhante tema.




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