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É tempo de olhar o futuro

A cidade não se constrói só de betão e de aço. De tijolos e de blocos. De apartamentos engaiolados e de emaranhados de ruas. De rotundas e de viadutos. De centros comerciais e de grandes superfícies. A cidade constrói-se com espaços abertos, com cores, com frescura e com visão. A cidade tem vida, sentimentos, agitação. Tem histórias e memórias. Tem alma e gente. Gente que sente, gente que pensa. Gente com imaginação, com criatividade e com vontades de se afirmar e de dizer não a um jugo cabresteado de rotinas.

Armindo Oliveira
11 Mai 2013

A cidade também se constrói com palavras, com imagens, com aromas e com verdura. Verde e frescura que se esterilizaram na aspereza do granito que forra os solos úberes. A cidade não pode confinar-se às urbanidades, aos poderes, às influências, aos tiques. E aos truques. Os senhores da cidade, sempre omnipresentes nas coisas supérfluas que “enfeitam” as praças e as ruas. Em cada esquina, em cada recanto, a presença daquelas figuras, daqueles gestos. Cidade sem verde e sem frescura. Muito cimento e muita pedra. Bicas secas dos chafarizes que brotavam água cristalina que debandava da colina aquífera das “Sete Fontes”. A cidade, contudo, ainda palpita, monótona, talvez exaurida da longa caminhada, precisa de ganhar novo fôlego, nova energia para se mostrar mais verde, mais rejuvenescida, mais empolgante. De mente aberta para abraçar a novidade da mudança. Mudança, ciclo de vida que provoca avanços, clarifica ideias, perspectiva o futuro. Mudança, para abrir janelas, abrir mentes. Sempre o futuro presente.
Com o fim do ciclo do betão e do aço, do tijolo e dos blocos, dos apartamentos engaiolados e do emaranhado das ruas, das rotundas e dos viadutos, é agora tempo de se olhar para as pessoas com olhos de sentir a alma e os anseios de um povo encarcerado pelo pavor do amanhã. É preciso olhar esta gente, de uma forma real e concreta, sem os castigar com a fidelidade forçada do rótulo eleitoral, em jeito de marionete. Não, rejeito a corda e os dedos hábeis que me fazem dançar sem acordes no palco da vida. Não, rejeito, simplesmente!
É preciso construir os outros lados da cidade que foram olvidados durante décadas. A cidade do pensamento livre, dos horizontes ilimitados, da inteligência, da criação artística e cultural. É preciso construir a nova cidade sem medos, sem retaliações, sem favoritismos. Todos, mas todos presentes e convidados para a cidade nova que se erguerá segura e cosmopolita das ruínas da devassidão que apequenaram a livre iniciativa. É preciso romper com as ameias das miopias enviesadas de um ciclo que se encerrou em vã glória. Tudo muito certo, muito esquematizado, tudo entregue sempre aos mesmos. Os mesmos de sempre, previsível, sem novidade.
 É preciso construir a cidade esquecida que mora ao lado da cidade perene, do nascente ao poente, do norte ao sul, de todos os lados, mas que é prendada com retoques de cinismos controlados pela certeza que o domínio nos pertence. É preciso construir a grande cidade da periferia, esquecida, amortalhada e envolvida, pelos caminhos lamacentos e pelas veredas estreitas que pouco mais resta do simples passar do corpo. É preciso lançar outros desafios, arrojados, fortalecidos pela ideia e pela certeza de mudança.
É tempo de dizer basta. É tempo de olhar o futuro.




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