Fotografia:
Um 2.º lugar “limpinho”…

Recentemente, ocorreu em Navarra (Espanha) um acontecimento digno de registo, numa prova de Cross Country, na qual participaram diversos atletas espanhóis e estrangeiros, entre os quais alguns dos mais prestigiados corredores africanos. A pouquíssima distância da meta, o queniano Abel Mutal, que ganhou a medalha de ouro nos 3.000 metros obstáculos nos Jogos Olímpicos de Londres, seguia destacado na frente da corrida. E preparava-se para ganhar a prova quando, inadvertidamente, parou por engano, julgando que tinha alcançado a meta…

Carlos Manuel Ruela Santos
10 Mai 2013

Foi então que o atleta espanhol Ivan Fernández Anaya, que seguia em segundo lugar, em vez de ultrapassar o corredor queniano e conquistar a vitória, chamou a atenção de Mutal para o facto de a meta ser mais à frente. E ele próprio o conduziu até à meta!
Abel Mutal acabou por vencer a corrida, como teria ocorrido se não se tivesse enganado. Até porque o espanhol Anaya se recusou a acelerar e a vencer a prova, vindo a ficar num segundo lugar “limpinho” – respeitando a “lógica” da corrida e… a verdade desportiva.
Ivan Fernández Anaya é um dos mais prestigiados atletas espanhóis da atualidade, a quem os críticos auguram um brilhante futuro – mesmo tendo em conta que já não é apenas uma “promessa” do atletismo castelhano, pois é o atual campeão de Espanha nos 5.000 metros.
No final da corrida, Anaya declarou que, mesmo que viesse a conquistar um lugar na seleção espanhola se tivesse vencido aquela prova, não se teria aproveitado do equívoco de Abel Mutal para lá chegar! “Eu não merecia ganhar; fiz o que tinha de fazer” – acentuou o atleta espanhol, revelando uma honestidade a que no desporto de alta competição estamos pouco habituados.
Nas redes sociais, e também em vários jornais e rádios de Espanha, o ato de Anaya tem merecido, nos últimos dias, justíssimos louvores. Por cá, porém, essa atitude passou muito à margem das parangonas dos jornais, mesmo dos chamados “desportivos”…
Ora, porque estamos habituados a ver atletas (de qualquer modalidade) e agentes desportivos a sobrevalorizarem as vitórias, encarando-as como valor supremo, mesmo quando elas são alcançadas à custa da “verdade desportiva”, é de realçar a exemplar atitude de Ivan Fenández Anaya! E é pena que atletas e clubes de todo o mundo – e, em particular, do nosso país – não tomem como “exemplo” a lição do atleta espanhol. Porque, se o fizessem, outro galo cantaria no desporto nacional e planetário, incluindo no futebol…
Infelizmente, o fanatismo clubístico dos adeptos portugueses não os deixa ver – porque não querem ver… – que nem sempre as vitórias (nomeadamente no futebol) são justas e merecidas. Assim como a exacerbada “ambição” de alguns futebolistas que jogam em Portugal não lhes permite tomar consciência de que, por exemplo, uma simulação de falta provocadora de uma grande penalidade pode desvirtuar a “verdade desportiva”.
A vitória é um fim em si mesma? É. Mas não pode ser obtida por qualquer meio ou a qualquer preço…




Notícias relacionadas


Scroll Up