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O juramento do Duque de Gândia

Aprimeira cerimónia do casamento da Infanta D. Isabel de Portugal (filha do rei D. Manuel I) com D. Carlos I, rei de Espanha, realizou-se, por procuração, em 23 de outubro de 1525, presidida pelo então bispo de Lamego. Só no dia 10 (ou 11…) de março do ano seguinte se veio a efetuar o matrimónio com os noivos lado a lado, em Sevilha. O primeiro filho de D. Isabel foi Filipe II de Espanha (que mais tarde viria a ser Filipe I de Portugal, na sequência da “crise” de 1580, que levou à perda da nossa independência durante 60 anos).

Victor Blanco de Vasconcellos
9 Mai 2013

Mulher corajosa, quando a parteira lhe disse para gritar, pois os gritos ajudariam a descontrair e a facilitar o parto, D. Isabel respondeu-lhe em bom português: “Não me faleis tal, minha comadre, que eu morrerei, mas não gritarei”!
Apesar de ter residência apartada de Carlos I (depois, Carlos V, quando se tornou Imperador do Sacro Império Romano-Germânico), D. Isabel e o marido nutriam um incondicional amor recíproco, largamente comprovado nas inúmeras cartas que escreveram um ao outro, nomeadamente quando o monarca espanhol se encontrava ausente, em guerra ou a negociar tratados de paz na Europa.
Quando D. Isabel de Portugal morreu, em 1539 – com apenas 36 anos de idade… –, na sequência de novo parto, o Imperador Carlos V sofreu como poucos a morte da mulher, tendo-se mesmo refugiado no Mosteiro de Sisal, vestido de negro, cor que usou até ao fim dos seus dias…
Quem conduziu o corpo da falecida imperatriz desde Toledo, onde morava, até Granada (onde então residia o marido), viagem que durou alguns dias, foi o Duque de Gândia, mais tarde São Francisco de Borja (que se tornou jesuíta, e 3.º Geral da Companhia de Jesus, depois da morte da mulher, D. Leonor de Castro, uma das “damas de honor” da bela Imperatriz).
Ao abrir-se, em Granada, o caixão de D. Isabel, para confirmação da identidade do régio cadáver, o Duque de Gândia (que, diz-se, a amara platonicamente), perante o elevado grau de decomposição do corpo daquela que havia sido uma das mulheres mais belas do seu tempo, pronunciou um “juramento” que ficaria para a história – e que, cinco séculos depois, foi utilizado por Sophia de Mello Breyner Andresen num dos seus mais belos e conhecidos poemas (“Meditação do Duque de Gândia na morte de Isabel de Portugal). Disse o Duque, depois “plagiado” por São João de Ávila, durante a homilia que proferiu no funeral, a que presidiu: “Jamais tornarei a servir a senhores que possam morrer”!
Vivemos hoje num mundo onde muitos “senhores” mandam como se fossem eternos e infalíveis! E aos quais obedecemos cegamente, como se eles não fossem humanos e, consequentemente, falíveis e mortais! Por isso, o “juramento” do Duque de Gândia é mais atual que nunca. Pena é que haja tão poucos a repeti-lo!




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