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Feuerbach e a identificação de Deus com o homem

Depois de uma breve e sintética apresentação de Feuerbach (1804) como filósofo, vou chamá-lo ao palco dos seus pensamentos para dizer algo das suas cogitações sobre a identificação de Deus com o homem e a religião cristã, como um fator da sua alienação. Deus é considerado por Feuerbach como uma brincadeira da imaginação, como uma quimera, uma projeção.

Benjamim Araújo
8 Mai 2013

Na linha do conhecimento, Feuerbach segue o sensualismo e, como tal, pretende reduzir à Antropologia, à margem da especulação imaterial, quer a Filosofia, quer a Teologia, quer a Religião. Vê a religião cristã com um certo azedume e pretende liquidá-la com argumentos psicológicos.
A verdadeira religião é definida por ele como “uma relação do homem consigo mesmo, isto é, com a sua essência” e condensa-a nesta afirmação “O homem é o Deus para o homem”.
A sua filosofia, “a filosofia do futuro”, é contrária à filosofia de Hegel. Para Feuerbach, o objetivo da filosofia é reconhecer o finito como não finito, como infinito. Para ele, o homem é um ser natural, real e sensível e, como tal, deve ser considerado pela filosofia na sua totalidade, isto é, da “cabeça aos pés”.
Rejeita a especulação imaterial, absoluta. Precisa dos sentidos para pensar e fundamenta os seus pensamentos nas realidades que entram pelos sentidos. A realidade, por excelência, é o homem.
Afastando-me um pouco de Feuerbach, questiono: Que consciência temos nós de consciência? A consciência, para além de ser a manifestação do conhecimento, desponta através dos sentidos (externos e internos), através da mente, da intuição, criatividade e meditação. A consciência pode ser, então, fenomenal, concetual, transcendental e transcendente. Se as consciências formarem, entre si, uma unidade, obtemos a consciência global.
A partir daqui, interessa, para mais clareza, evidenciar a consciência existencial e transcendental do homem na sua integridade. Ao evidenciarmos a consciência transcendental, estamo-nos a referir ao conhecimento da natureza ou essência do seu ser real, concreto e autêntico, que o homem possui em si. Os atributos, imanentes, específicos e eternos, deste autêntico ser, são as potencialidades ativas de vida, misericórdia, justiça, amor, paz, sabedoria. São dádivas de Deus transcendente e são suas manifestações e semelhanças.
Somos analogicamente idênticos a Deus, quando a nossa integridade, defendida fervorosamente por Feuerbach, se banha no mar destes atributos, purificadores e libertadores da nossa vida existencial. Tudo isto está implícito, creio eu, nas sublimadas afirmações de Feuerbach: “o homem é o Deus do homem” (op. cit. p.426) e “A consciência que o homem tem de Deus é a consciência que o homem tem de si” (op. cit.p.37). Dentro deste contexto, tem o meu apoio.
Quanto à afirmação de Feuerbach de que “a religião cristã e o seu Deus são uma projeção e um fator de alienação ou pobreza do homem”, vou entrar na distinção entre religiosidade e religião.
A religiosidade não é imposta; brota espontaneamente do nosso próprio ser. É-lhe imanente. Por isso, a nossa religiosidade resulta da tensão vital, em que vive o nosso ser autêntico, na ânsia de se dissolver e apagar em Deus transcendente. A consciência global não tem força para a destruir ou apagar.
A religião, como manifestação desta tensão, é o relacionamento do homem existencial com Deus autêntico, transcendente, passando pela especificidade dos atributos da nossa essência (o ser autêntico ou o Deus de Feuerbach). Se a dissonância, teimosamente se implanta na existência, instigada pela mente e suas paixões, então fervilham, no homem, as alienações. Nestes casos, a religião deixou de ser autónoma e livre. Tem de ser purificada.




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