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Os próximos resgates

Acredito cada vez mais no segundo resgate. Não porque o queira – ao contrário, o que temos já foi longe de mais e tem causado muito sacrifício –, mas porque Portugal caminha a passos largos para esse constrangimento. Não são precisos raciocínios aprofundados para percebermos que está a chegar já ao dobrar do novo pacote de austeridade. Rudimentos de cálculo de quarta classe são suficientes. Qualquer leigo na matéria chega a essa conclusão de uma forma simples e sem a folha de excel avançado utilizado por Gaspar e Passos. Se estávamos apertados com a dívida, hoje estamos a ficar sufocados.

Luís Martins
7 Mai 2013

Como país, devemos hoje mais algumas dezenas de milhar de milhões de euros do que devíamos quando foi pedida ajuda externa. Andam a dizer-nos que a dívida há-de baixar dentro de pouquíssimos anos, mas não é verdade. Alguém acredita? Andamos a poupar e ainda estamos a endividar-nos mais? Como é que isso é possível? 

O país anda à procura dum ponto de equilíbrio entre receita e despesa públicas o mais baixo possível, isso já se percebeu. O problema é como arranjaremos, no modelo que está a ser seguido, margem para a poupança. É verdade, sem ela não conseguiremos pagar a dívida (de capital) e, sendo assim, a dívida (de juros) será cada vez mais volumosa. A cada dia que passa a primeira ficará mais incomportável e o que o país tiver de pagar em juros deixará de ser canalizado para as funções básicas do Estado. Limpinho e fácil de perceber! E se a velocidade de endividamento continuar, o que é expectável, entraremos numa espiral devedora até que pereceremos por aperto total do gorgomilo. Ninguém sobrevive à falta prolongada de oxigénio.

Tem-se discutido por que não fazemos o ajustamento em alta, isto é, sem reduzirmos o emprego e o consumo. Mas, quem pode manda e o Governo decidiu, ou pelo menos tolerou, que o desenvolvimento do processo de recuperação do país não fosse por aí. O impacto, está-se a constatar, tem sido francamente mau. A explicação é simples: quando os rendimentos de alguém são significativos, este até poderá exagerar uma vez ou outra ou até muitas vezes, mas tem margem para poupança se for colocado contra a parede por qualquer credor. Ao inverso, se os seus rendimentos forem baixos ou muito baixos, a capacidade de poupança é, na melhor das hipóteses, zero, tendo em conta que há um mínimo indispensável para se manter de tronco levantado. 

O mesmo acontece com o país. Portugal não terá qualquer possibilidade de solver os seus compromissos financeiros perante os credores se os governantes estiverem fixados em empobrecer os cidadãos e os cofres do Estado. Sim, a dose de austeridade tem feito emagrecer também as receitas públicas e sem essas nenhum Governo pagará coisa nenhuma a quem nos tem emprestado dinheiro. Dizer o contrário é não dizer a verdade. Tem-se ouvido dizer que o Estado poupou nos últimos dois anos – aqui o verbo significa corte, em vez de parcimónia para fazer face a compromissos futuros – mais de uma dezena de milhar de milhões de despesa. É verdade, mas, em contrapartida, já se endividou no exterior, no mesmo perío-do, em mais de três dezenas de milhar de milhões, num ritmo superior ao que vinha acontecendo antes. E assim parece que continuará a acontecer a manterem-
-se as políticas que têm vigorado.

Por isso acredito que estará para breve um segundo resgate. Não pela situação em que o país estava antes do acordo do empréstimo dos 78 mil milhões, mas por causa das letras miudinhas do rodapé do contrato, mal lidas ou mal traduzidas, e do resto do texto que o Governo tem vindo a acrescentar ao documento. Inusitadamente, diga-se, pois ninguém sensato dá mais garantias ao banco do que aquelas que o mesmo pede. Há, a propósito, quem afirme que se constituíram como defensores oficiais indivíduos que são colaboradores dos credores. Mas talvez não seja bem assim.

Havemos de falar num terceiro ou num quarto resgate se as coisas não mudarem. E por aqui me fico nesta terça-feira sem previsão de sol.




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