Fotografia:
Dias de alvoroço!

Nem sempre é fácil materializar em palavras o turbilhão de pensamentos que me invade a mente e que regularmente partilho. Ao dar corpo a este compromisso que, com muito gosto, mantenho com os leitores do Diário do Minho, sinto-me numa dessas circunstâncias, tamanha é a efervescência provocada pelo chorrilho de notícias dos últimos dias.

J. M. Gonçalves de Oliveira
7 Mai 2013

Logo no princípio deste rol, a ensombrar o pretérito fim de semana de prometido e consubstanciado bom tempo, surgiu, ao cair da noite de sexta-feira, a comunicação do Primeiro-ministro ao país e, sensivelmente à mesma hora, a entrevista a António José Seguro. Mais adiante, uma avalanche de reações e comentários que longe de trazer esclarecimento e algum sossego ampliou a enorme agitação. Confesso que, como eu, boa parte da maioria dos portugueses ter-se-á sentido como peixe preso no anzol de que não se consegue libertar.
As novidades trazidas pela voz de Passos Coelho, por muito que se esforce por as considerar inevitáveis tendo em conta a reprovação pelo Tribunal Constitucional de algumas normas do Orçamento do Estado para o ano corrente e, sobretudo, os compromissos assumidos no memorando assinado com o triunvirato constituído pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, são de muito difícil aceitação. Porém, a solução que tem vindo a ser apresentada pelo líder do maior partido da oposição para a inversão do caudal de austeridade, ao depender essencialmente da vontade dos credores, não me parece exequível, pelo menos, enquanto não houver uma alteração do rumo da atual política europeia que, ferozmente, tem subjugado os povos do sul do velho continente.
Mais serena e assumindo forte cariz pedagógico foi a comunicação de Paulo Portas já ao cair da tarde de domingo. Não deixando de expressar a solidariedade e a concordância com a maioria das medidas anteriormente anunciadas por Pedro Passos Coelho, vincou claramente os limites que não pretende ver ultrapassar, especialmente em matéria de reformas e pensões, comprometendo-se a negociar com os credores as medidas necessárias para as poder salvaguardar, reforçando ao longo de todo o seu discurso as vantagens de podermos recuperar a soberania perdida em junho do próximo ano.
No entanto, no gigantesco labirinto em que nos encontramos, julgo não nos restar outra alternativa senão resistir para ir ganhando tempo. Um tempo que parece não mais chegar, mas que poderá advir num assomo de clarividência dos atuais dirigentes europeus. Há pequenos indícios que nos podem fazer sonhar com esse momento de viragem. As dúvidas sobre a política seguida e, principalmente, uma das suas mais terríveis consequências – o desemprego juvenil – está em crescendo e tem sido alvo de objeção de destacadas personalidades como Jean-Claude Junker ou, ainda que mais timidamente, de Durão Barroso. Outro sinal que nos alimenta esse desejo de mudança surge com a tomada de posse de Enrico Letta como chefe do governo italiano, pelo seu empenho junto dos diversos líderes europeus na adoção de medidas urgentes de apoio ao crescimento económico para o combate àquele flagelo. Em oposição a estas réstias de esperança, mas constituindo um sério aviso para a integridade da União Europeia e por isso constituindo um alarme que a todos deve fazer pensar, está o estrondoso avanço do antieuropeu Partido da Independência do Reino Unido (UKIP), ao conseguir cerca de 25% de votos nas eleições locais britânicas realizadas na passada quinta-feira.
Como tem sido referido pelo responsável pelo pelouro do Emprego, Assuntos Sociais e Inclusão na Comissão Europeia, Lãszló Andor, as consequências sociais da prolongada crise assumem proporções muito graves. O número de pessoas desempregadas e a ausência de crescimento estão a minar a confiança nos sistemas políticos e económicos em toda a Europa, sendo uma verdadeira emergência a criação de empregos para os jovens que detêm a chave do futuro.
Prosseguir este caminho, onde lado a lado com o rigor não mora qualquer alento, levará a irreversíveis clivagens geracionais. Mais cedo ou mais tarde, ficará pronto o terreno onde poderão germinar populismos oportunistas aptos a reencarnarem fantasmas de momentos tenebrosos da História.
Ignorar os alertas que, por diversas formas vão despontando um pouco por todo o lado, não será um ato de coragem, mas antes uma cega teimosia que a todos pode fazer mergulhar na mais negra escuridão.
Neste momento crucial da construção europeia, seria importante que os países que sofrem na pele as agruras desta prolongada crise encontrassem formas de concertar posições que, mais do que aliviar o sofrimento, permitissem devolver a confiança aos seus povos. Esta poderá ser a única forma capaz de impedir que, a breve prazo, a União Europeia não se torne uma saudade.




Notícias relacionadas


Scroll Up