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Pe. Vila-chã, um mito da humanidade

Uma situação de degenerescência patológica privou a continuidade na vida do eterno amigo Padre Augusto Gonçalves Vila-Chã. Conheci-o muito antes de iniciar a sua atividade apostólica como capelão do Hospital de São Marcos. Recordo-me vivamente das longas conversas que mantínhamos aquando da minha curta passagem pelo Colégio Jesuíta de Nossa Senhora da Conceição, em Cernache, Coimbra. Mantinha um espírito sintonizado e integrante na comunicação interpessoal. Tinha espírito de líder e instituía um círculo de amizade, de lealdade, sinceridade e de grande sapiência conselheira. Admirava-o pela sua postura singela de humildade e de altruísmo.

Albino Gonçalves
6 Mai 2013

O Padre Vila-Chã era um fenómeno humano que merecia um respeito mútuo por toda a sua convivência social. Tinha um grande peso nas suas mensagens, potenciava os mais fragilizados na saúde ou os mais desafortunados na vida para a esperança e a fé em dias melhores.
Ainda no Hospital de Braga apertamos as mãos. Percebi que algo de especial queria dizer-me, mas optou pela mesma configuração de pessoa determinada, sem queixumes ou reclamações da injustiça que a vida lhe retribuiu. Disse-me que talvez fizesse mais falta junto de Deus e que chegara a hora para “outra viagem…”.
Encontrava-o, por vezes, em momentos de emoção quando se despedia de um doente em fase terminal ou em momentos difíceis da sua enfermidade.
Assumia-se como um pastor disponível, num trabalho sem carga horária, dias de descanso ou suplementos remuneratórios extraordinários. Augusto Vila-Chã era um carismático, um sacerdote no seu verdadeiro sentido espiritual.
Reconheço, sem margem de dúvidas, que a sua ausência abre uma lacuna sem precedentes, mas o seu legado intocável jamais será esquecido. O Padre Vila-Chã tinha um olhar sorridente, insistia no combate às brechas dos momentos menos bons e aplaudia quando estávamos felizes. Confidenciava-me projetos inacabados e revelava um património de ideias promissoras. Era um Professor da Vida, um orientador da nossa atividade pessoal. Conseguia correlacionar os dois lados com uma facilidade de mestre. Espantava-me a dinâmica interventiva quando ele sabia estar no momento certo em cenários dolorosos, de grande sofrimento humano. Era paciente para saber ouvir, solidarizava-se com os desabafos de quem lhe ia contando as desgraças.
Era incansável, venerava tudo o que lhe dava satisfação. Fascinava-se pelo trabalho exercitado na família dos profissionais de saúde hospitalar. Sabia retribuir carinho e até se dava ao luxo de contar algumas anedotas junto dos seus amigos mais próximos. O Padre Vila-Chã proporcionou-me grandes momentos de gargalhadas, às vezes tão oportunas e bem-vindas, depois de um dia de trabalho exausto ou dececionante.
Terei que resignar-me, com mágoa, a seguir o curso da minha vida sem a presença dele. A sua falta é insuperável, não esquecerei os momentos distintos, os ensinamentos proporcionados, as “provocações” dos desafios quando engrenei pelo rascunho na comunicação social, pela doutrina da verdade e da frontalidade, pela confidência recíproca que existia entre nós, pela admiração “imaculada” insertada numa pessoa boa, ética, fantástica e um autêntico património humano de elevado gabarito social. O seu arrebatamento brusco do nosso convívio pesa-nos no nosso coração.
Daqui deste “inferno” planetário, turbulento e preocupante, envio-lhe um grande e querido abraço.




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