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Aflição

Os portugueses estão aflitos quanto ao que se pode vir a passar na vida política portuguesa. Estão como observadores numa sala onde o atual Governo e a maioria parlamentar que o apoia estão no limiar para sair e onde do lado de fora o PS espera para entrar. E o que o português normal se interroga é se quem vai entrar é melhor do que os que vão sair, porque se tivessem a certeza de que os que querem entrar serão melhores que os que vão sair, a aflição virava esperança e as nuvens negras desapareciam deste céu cinzento.

Paulo Fafe
6 Mai 2013

Mas não têm a certeza dos benefícios da mudança porque o discurso de Seguro no encerramento do congresso socialista deixou a muitos de nós um amargo de boca e a saber a pouco. Como certeza absoluta, e já agora honesta, é que austeridade e o rigor orçamental vão continuar. E como esperança de melhoria de vida dos portugueses prometeu os ovos da galinha sem saber se a galinha quer pôr esses ovos. Ficamos com a sensação de que Seguro prometeu uma mão cheia de nadas e outra de coisa nenhuma. E sentimos a aflição de que a mudança, para melhor, não passa de tese argumentativa sem valor de prática e longe daquilo que os portugueses esperavam para o futuro próximo. Julgo que nos sentimos todos órfãos de pai e mãe. Olhamos para a mudança e apenas vemos a “renovação na continuidade”; o mesmo sentimento que já experimentamos, os mais velhos é claro, na primavera marcelista. Vamos continuar, segundo Seguro, a depender dos senhores da Europa. Mas se tudo é igual a pergunta que fazemos é esta: mudar para quê? Parece que afinal o sr. Presidente da República quando afirmou no seu discurso de 25 de Abril que não há alternativa a este governo tinha razão. Que alternativas há para a contenção orçamental, para o rigor das contas públicas e para a continuação da austeridade? Segundo Seguro tudo continuará na mesma. Que políticas concretas foram avançadas quanto ao investimento? Seguro quanto a isto nada disse. Vai mudar as leis do trabalho mormente quanto a indemnizações por despedimento? Não ouvi uma palavra a Seguro.  Afinal a alternativa de mudança passa por negociar com o BCE, com os bancos e com uma mutuária entre os países devedores, tudo ainda em cores de caleidoscópio. Cores bonitas a rodopiarem miragens. São os tais ovos que ainda se não sabem se vão ser postos pela galinha. A soberania das finanças sobre a economia desacreditou Vitor Gaspar e seus iguais europeus. Era-lhes difícil conceber que quem não tem dinheiro não gasta e que quem não tem emprego não desconta para a segurança social. Isto  era uma visão de dona de casa, diziam eles empoleirados em gráficos e curvas de rendimento. Mas a dona de casa sabe por experiência de despensa que não havendo dinheiro para gastar as prateleiras ficarão cada vez mais vazias. Agora parece que estão a acordar do pesadelo em que se meteram e nos meteram. Não há dúvidas quanto a isto. Mas se a Europa acordar de vez, Portugal também acordará. Fomos condado de Castela, agora somos protetorado da Europa. O orgulho nacional espuma de raiva, mas esta é a a verdade. O orgulho é luxo de rico.




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