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O poder do afecto e do exemplo

Um dia, um amigo perguntou a um dos netos, que presumo tenha entre os 5 e os 6 anos e que gosta muito de o imitar, se ele gostava mesmo do avô e ele responde-lhe: ó avô, tu não vês que eu faço tudo aquilo que tu fazes? Como quem diz: se eu gosto de fazer como tu fazes, é porque eu gosto de ti. É a isto que se pode chamar a relação de um verdadeiro discípulo: gosta do seu mestre, admira-o e procura imitá-lo. Pais e educadores: aqui está o modelo teórico da arte de fazer discípulos. O discípulo escolhe o mestre, porque o admira, imita-o e gosta de aprender o que ele lhe ensina.

M. Ribeiro Fernandes
5 Mai 2013

Mas, atenção: é o discípulo que escolhe o mestre e não o mestre que é imposto ao discípulo. O factor afectivo não se pode impor. Isto mostra como a criança precisa de exemplos vivos, de quem goste dela e se sinta amada por eles. Não basta ensinar, como professor robô; é preciso gostar do aluno, gostar de ensinar e saber ensinar. 

Contou-me ainda um outro caso. Um dia, um outro menino, com seus 3 a 4 anos, disse para a avó, que insistia para que ficasse com ela: ó avó, não quero, eu só gosto do avô… Porquê, pergunta a avó um pouco desolada? Porque a avó é chata, diz ele muito candidamente… Há neste desabafo dois aspectos a considerar: o primeiro é que a avó se queria apresentar como objecto de amizade e, nesta área nada se impõe, apesar de ela gostar muito do neto; o segundo, é que a avó não se soube ver ao espelho da consciência, não se apercebeu que tem alguma falta de sensibilidade relacional, resultante de condicionamentos educativos que ainda não conseguiu modificar.
Eu diria que há uma conclusão óbvia a tirar: quem se quiser ver ao espelho e ser melhor na arte de compreender os outros veja como as crianças olham para si e como reagem ao seu modo de ser.

1. A primeira reacção da maioria dos adultos seria repreender a criança, porque nem tudo o que se sente se deve dizer. Felizmente que esta avó não pensava assim. A criança há-de crescer e há-de aprender as regras das conveniências sociais. Tudo tem seu tempo na vida; para já, deixem-na ser espontânea e sincera. Mas, já agora, uma pergunta: e se o adulto fosse capaz de admitir que nem sempre tem razão? Se assim fosse, tenho a certeza que as relações humanas podiam melhorar…
O que essa criança fez foi devolver à avó, sem qualquer agressividade, a imagem que tem dela. E a avó percebeu, aceitou com humildade essa reacção e procurou melhorar o seu modo de relacionamento com ele. Um exemplo a sublinhar.

2. Lembram-se daquele episódio em que um grupo de estudantes provocou um ministro por causa duma licenciatura que ele disse que tinha, mas não tinha (quer dizer, tinha por correspondência) e do modo com ele reagiu com os estudantes? Em vez de reconhecer o seu erro e procurar resolvê-lo, ele (e o Governo) criticou os alunos e disse que não ia ter medo deles por causa das suas provocações. Há muitos adultos que reagem assim. Querem impor a sua opinião pela força do seu poder (já não digo pela força da autoridade, porque muitas vezes não a têm). Alegam que perdiam a autoridade se não se impusessem. Puro engano: errar é humano, persistir no erro é próprio de imaturos e de arrogantes. O que eles fazem é confundir autoridade pessoal com poder pessoal. Podem ter autoridade institucional, que se traduz em poder, mas essa pouco vale se não for reforçada pela autoridade pessoal e moral (ética).

3. Que se pode esperar de uma atitude de imposição sem autoridade pessoal? Que a parte mais fraca ceda? Temporariamente, por medo, pode ceder, mas nunca aceitará por convicção. Nenhum mestre ganha discípulos e constrói laços sociais pela via da imposição das suas ideias, mas apenas pela via do exemplo e da admiração que conquista. Quem pensa que pode impor regras de vida aos outros só porque está convencido que institucionalmente tem esse poder engana-se: as regras só têm aceitação quando vão ao encontro de alguma necessidade e quando emanam da autoridade do bom exemplo.
Quem governa tem de ser não apenas competente e íntegro, mas também saber ouvir os outros para perceber se vai no caminho certo. Durante muito tempo, povo aceitou, por imposição, que a política não era com ele, mas com os políticos. E a religião sancionava isso dizendo que a obediência aos “superiores” era uma grande virtude. Hoje, o povo descobriu que era tudo ao contrário: a política é de todos, porque trata dos assuntos colectivos do povo; e a submissão da obediência não tem valor nenhum, porque destrói a dignidade humana. O que tem valor é a cooperação consciente e responsável. E isto mudou radicalmente a concepção política do poder e a sua sacralização.




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