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O medo de antes e o de agora

Contra o medo entranhado no Portugal de antes de 25 de Abril de 1974, há abundantes vozes literárias. No poema “Porque” (In Mar novo, 1958), muitas vezes cantado por Francisco Fanhais, Sophia de Mello Breyner Andresen, dizendo num verso que “os outros têm medo mas tu não”, fixa a regra nacional e a excepção. A regra são os que “se calam”; os que “são hábeis” e “calculam”. A excepção encontra-se na valentia daquele que vai “de mãos dadas com os perigos”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
5 Mai 2013

A norma permite que, em “Poema pouco original do medo” (In Abandono Vigiado, 1960), Alexandre O’Neill apresente um prognóstico: “O medo vai ter tudo / quase tudo / e cada um por seu caminho / havemos todos de chegar / quase todos / a ratos // Sim / a ratos”. Num outro poema, “Perfilados de medo” (In Poemas com endereço, 1962), que muitos conhecerão cantado por José Mário Branco, O’Neill regista: “Perfilados de medo, agradecemos / o medo que nos salva da loucura. / Decisão e coragem valem menos / e a vida sem viver é mais segura.” Os “outros” de Sophia são o “rebanho pelo medo perseguido” de O’Neill.

Pouco mais de cinquenta anos após a publicação destes poemas, o medo agudiza as suas consequências devastadoras, disseminando-as pelo planeta. Sobre os trabalhos do medo, há abundante bibliografia. Eloquente é L’administration de la peur (Paris: Textuel, 2010), que recolhe uma entrevista ao urbanista e filósofo Paul Virilio, que fala de antes e de agora. Outrora, o medo era um fenómeno associado a acontecimentos localizados, identificados e circunscritos no tempo. “Hoje, é o próprio mundo que nos estrangula e nos stressa numa espécie de claustrofobia: crises bolsistas contaminantes, terrorismo indiferenciado, pandemias fulgurantes, suicídios ‘profissionais’”. Em síntese: “o medo é o mundo”. E “a administração do medo”, que o título do livro refere, designa, segundo Paul Virilio, um empreendimento dos Estados que fazem do medo, da sua orquestração, da sua gestão, uma política.

Uma das fontes da insegurança social é, para o autor, a última mundialização, “a da finitude da geografia face à compressão temporal”, que provoca uma dramática aceleração da vida actual. “As sociedades modernas conheceram um verdadeiro acidente do tempo. Quebrámos a linha melódica que se chamava a vida em comum”. E o impacto da aceleração do real nos ritmos sociais está a manifestar-se devastador. Os ritmos de outrora, constata o urbanista e filósofo, ligados às estações do ano, à liturgia, ao domingo feriado, ao sabbath, têm vindo a desaparecer para dar lugar aos sete dias por semana, às vinte e quatro horas por dia. Em vez de ritmos de vida temos vidas arrítmicas.

Paul Virilio explica que “aquilo que se designa tecnicamente por compressão temporal é um acontecimento que modifica concretamente a vida quotidiana de cada um e de todos ao mesmo tempo. Diante desta aceleração da vida quotidiana, o medo tornou-se, em tempo de paz, no nosso meio ambiente natural”. O que sucede é que “habitamos o acidente do globo, o acidente da sua instantaneidade, da sua simultaneidade e da interactividade que prevalece sobre a actividade ordinária”.

Uma afirmação do jurista Laurence Boisson de Chasourne é citada para afirmar algo considerado essencial: “A urgência não produz o direito, pois é o direito que acompanha o processo político habitual”. É que, sublinha Virilio, “o direito do mais rápido é o direito do mais forte. E hoje o direito está submetido ao estado de urgência permanente”. Agora, “vivemos em directo a perda de ritmologia sociopolítica que governou as pessoas desde sempre”.

A velocidade na vida quotidiana e no trabalho manifesta-se violentamente. Virilio recorda, a propósito, a vaga de suicídios que vitimou inúmeros trabalhadores da France Télécom que não resistiram à pressão da administração da empresa. Para Virilio, “quando o suicídio é considerado como um acidente de trabalho (e nós encontramo-nos no limiar do reconhecimento oficial do suicídio como acidente de trabalho), a administração do medo encontra-se a trabalhar”. “‘Sentimento de medo’ obriga trabalhadores a aceitarem todas as regras e todas as imposições”, diziam o Diário do Minho e o Público na quinta-feira, dando voz a uma oportuna denúncia da Caritas portuguesa. Os administradores do medo encontram-se, de facto, sempre a trabalhar.




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