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Caminho conhecido e que urge andar sempre

Trata-se do bom acolhimento pessoal, um caminho indispensável na ação pastoral. Sempre foi importante. Hoje é absolutamente necessário, dado o abandono de tantos que vêm ocasionalmente às paróquias ou a outros serviços da Igreja e cuja vinda tanto pode gerar uma relação amistosa que vai perdurar e dar fruto como um novo motivo de abandono, quem sabe se para sempre.

D. António Marcelino
5 Mai 2013

Cada dia verificamos que os serviços do Estado e das empresas, quando em contacto com o público, se esmeram por acolher bem, ouvir e orientar quem os procura. Quando somos nós os bem acolhidos e presenciamos que o mesmo se passa com todos os outros, alegramo-nos por ver como se vão humanizando, sempre mais, as relações interpessoais. Neste clima de acolhimento até compreendemos e aceitamos o não, quando o sim não é possível.
A Igreja deve primar pelo respeito para com as pessoas, pela humanização das relações mútuas e tem de estar preparada para ajudar e não apenas para dizer que não é possível o que se lhe pede. Se tal não é possível, então o que é possível e que não se pode negar nunca? Porque se procuram pouco os afastados, não se pode deixar de aproveitar o encontro dos que vêm, por vezes com certo constrangimento, mas que se sentem obrigados a dar esse passo, normalmente por motivo do batismo ou da catequese dos filhos.
Li com muito interesse algumas páginas de um livro de entrevistas livres feitas ao então cardeal Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, que agora é o Papa Francisco. Respigo aí alguma frases que dizem bem do seu pensamento e convicções. “Chamo a atenção para a importância de um acolhimento cordial. A tentação em que nós, os clérigos, podemos cair é a de sermos administradores e não pastores. Isto leva a que quando uma pessoa vai à paróquia para pedir um sacramento ou por qualquer outro motivo, já não seja atendida pelo padre, mas sim pela secretária paroquial que, em certas oportunidades, pode resultar numa situação desagradável. Numa diocese havia uma secretária a que os paroquianos chamavam a “tarântula”. O problema é que este tipo de pessoas não só afugenta as outras do padre, da paróquia, como da Igreja e de Jesus. Não podemos esquecer que, para muita gente, a paróquia próxima da sua casa é a porta de acesso à religião católica. É tão importante quanto isso”. E insiste, depois, como é fundamental, tanto a clérigos como a leigos, ir ao encontro das pessoas e tratá-las pelo seu nome. Essa é a sua missão. Uma paróquia que vê tudo em referência a si própria “fica paranoica e autista”. E acrescenta, com uma sabedoria admirável: “É verdade que se uma pessoa sair para a rua lhe pode acontecer, como a qualquer outra, um acidente: mas prefiro mil vezes uma Igreja acidentada a uma Igreja doente”.
O acolhimento é um ato humano digno e necessário e também um ato de fraternidade cristã, expressão de um amor que não admite fronteiras e exprime, sem exclusões, uma prioridade a que têm direito os mais pobres e afastados. Disso mesmo deu testemunho Jesus Cristo na sua vida pública. Outro não pode ser o caminho dos seus discípulos e da Igreja. Houve séculos de um clericalismo e de uma Igreja referenciada a si própria que deixaram marcas negativas e dolorosas. O Vaticano II fez-nos voltar ao Evangelho e ao testemunho do único Mestre. A sociedade atual, voltada para o reconhecimento da dignidade de cada pessoa, veio ao encontro desta necessidade. Conhecido o caminho, loucura será andar ao arrepio dele.




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