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Gerir dinheiro público

É nos momentos de crise que nos apercebemos e sentimos mais e melhor os constrangimentos impostos pela falta de dinheiro, pela falta de emprego e pela instabilidade emocional que nos retira a legítima capacidade de sonhar e de perspetivar o futuro com um olhar mais desinibido, mais otimista e muito esperançado. Nestes momentos de fragilidade social, ficamos, sem dúvida, mais despertos e mais conscientes para os graves problemas das pessoas e das famílias. Vemos as instituições de solidariedade social, incansáveis e em ações de campo, a fazer a multiplicação da generosidade, dos afetos e dos bens recolhidos para suprir necessidades de extrema pobreza e vulnerabilidade.

Armindo Oliveira
4 Mai 2013

Vemos um país a cair em lamentos doridos pelas condições de vida agrestes impostas por uma crise que não provocaram. Vemos, por outro lado, a Câmara Municipal de Braga a distribuir perto de 2 milhões de euros pelos seus clubes desportivos. Incrível! Impensável! Só o Dumiense F. Clube recebeu 426.719,04 euros! Pasme-se!
Esta ligeireza da distribuição do nosso dinheiro não é só um ato de gestão de duvidosa utilidade pública, mas um tratamento privilegiado em relação às Juntas de freguesia que se viram desvalorizadas e prejudicadas na sua ação diária para colmatar tantas e prementes necessidades que existem nas suas aldeias. Não se consegue perceber como foi possível a “Câmara Municipal de Braga dar a sete clubes metade do que canalizou para obras em 57 freguesias”. E depois, fica-se admirado com a rudeza e com a insensibilidade das medidas da Troika.
Sabemos por experiência acumulada ao longo da democracia que colocar dinheiro no mundo da bola é o mesmo que lhe pegar fogo. Não resolve problemas e alimenta uma máquina infernal de triturar recursos financeiros e de iludir as esperanças dos mais jovens e não provoca retorno significativo do “investimento” feito. É simplesmente queimar dinheiro, porque funciona na lógica das vaidades, das facilidades, dos protagonismos bacocos e de eleitoralismos políticos. Foi assim que aconteceu nas autárquicas de 2009 com a ideia genial da construção dos cam
pos de relva sintética em tudo o que era pelado. A fatura monstruosa iria ser paga, mais tarde, pelo cidadão contribuinte, em completo prejuízo do desenvolvimento equilibrado das freguesias ditas não urbanas. Também aqui se pode aplicar a máxima de Jorge Sampaio: “Há mais vida para além da bola!”
Fazendo as contas até para se confrontar com a genialidade da distribuição do dinheiro da CMB, pode calcular-se facilmente que, em média, “cada freguesia não urbana, num total de 57, recebeu 55.242 euros para investimento por delegação de poderes”, sabendo-se, entretanto, que a freguesia Merelim São Pedro não foi contemplada com um único cêntimo nestes últimos três anos e meio de poder da “Coligação Juntos por Braga”. É isto que tem que mudar no nosso município para bem da transparência, da gestão equilibrada dos parcos recursos financeiros ainda disponíveis, da valorização das Juntas de freguesia como poder político local legitimamente sufragado e do desenvolvimento metódico e racional das freguesias no que concerne às infraestruturas físicas e ao bem-estar social dos seus moradores. Se dermos umas voltas pelos caminhos das freguesias não urbanas deparamo-nos com cenários nada condizentes com uma cidade que se orgulha de ser a 3.ª cidade no ranking nacional. Caminhos lamacentos e em terra batida e veredas estreitas, próprias dos tempos dos carros de bois.
Para se gerir dinheiro público implica ter-se uma dimensão de consciência e de responsabilidade enormes, de brio pessoal, de respeito pelos impostos que os contribuintes pagam e essencialmente uma conduta criteriosa e séria do bem que é de todos.




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