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O depósito

Foi há dias, em tertúlia organizada para defesa da família, que a Dr.ª Ferreira Leite afirmou que os idosos são atirados para o DEPÓSITO. Tentei deglutir silenciosamente esta expressão, mas saiu-me tão amarga nos seus contornos que não tenho outro remédio senão repudiá-la. Todos sabemos que a família é o ambiente natural onde se podem sentir felizes os idosos. Como os meninos, como toda a gente. E é por demais evidente que o melhor lugar de estadia é a casa onde se mora e a família o mais perfeito e completo ambiente de felicidade.

P.e António Rodrigues
3 Mai 2013

Nunca foi feliz quem não teve família e nunca ninguém encontrou paz e estabilidade fora das portas de sua casa. E também é sabido que é mais saboroso o beijo dos filhos e dos netos que os carinhos, por mais bondosos e sinceros, que se recebam de outrem. É por isso verdade, e é insufismável esta verdade, que os idosos se sentem melhor no regaço dos seus e no ambiente de sua casa.  A família foi a realização do sonho da sua vida e é mesmo a concretização de todo o seu viver. Arrancá-los desse ambiente é como retalhar-lhes a alma, é mesmo destruir-lhes a vida.
Mas, quem não tem família? Estou a lembrar-me daquele idoso acamado que fomos buscar ao pobre quarto que lhe servia de mansarda; roupas de dormir esfrangalhadas e presas à cama com arames enferrujados, pele crivada de manchas vermelhas produzidas pelos parasitas que lhe empestavam a roupa. Higiene? Talvez nunca, e a comida, trazida por alguns vizinhos, apodrecia na velha cadeira que lhe servia de mesinha. Como se sentiu feliz na cama lavada onde passou a dormir e com os carinhos que passou a receber!
E aquela senhora abandonada dos seus – nunca soubemos se os tinha – devorada pelas carraças que enegreciam as paredes e cobriam o chão como um tapete movediço! Não é exagero. O lajedo de terra do seu tugúrio ficou ensanguentado debaixo das solas dos sapatos de quem a foi retirar daquela miséria. Como não havia de ser feliz em novo ambiente que a recebeu como um ser humano e lhe deu o conforto que parece que nunca teve?
E aqueles atingidos por uma doença grave – um alzheimer, um acidente cerebral, um senilidade precoce e pronunciada… – que precisam de cuidados especializados e mais frequentes, se as famílias estão dispersas ou mesmo ausentes, ou se trabalham e não lhes podem dar nem o carinho que lhes faz falta nem os cuidados que lhes são necessários com mais frequência?
E não estamos a falar de excepções; são tantas as pessoas mergulhadas nestes abandonos e nestas carências!
Os LARES existem para que todos esses tenham um ambiente de carinho, um tratamento apropriado às suas doenças, um ambiente familiar que lhes permita um final de vida tranquilo, digno e feliz. Não desejam outra coisa os lares.
Depósitos, não. Essa maneira de falar insulta os voluntários que dedicam a sua vida a distribuir amor. Ofende os profissionais que se esfalfam para que os idosos não sofram e tenham os mimos que receberiam dentro de uma família bondosa. A paciência quase sem limites com que aturam as birras que a velhice desperta, a mansidão das palavras com que tentam convencer os idosos a tomar os seus medicamentos, os modos maternais com que lhes ministram a comida que eles já não sabem levar à boca, e o sofrimento, às vezes até às lágrimas, quando veem o seu velhinho desaparecer lentamente, fazem destas senhoras – são na maioria senhoras – o mais belo amparo de todas as carências.
O lar é uma família, um sítio onde se vive de amor, uma casa que distribui carinhos e que faz a felicidade dos últimos anos de quem sofre o peso de quase todas as desgraças. Nem sei porque lhe trocaram este nome pela eclética expressão de estrutura residencial para idosos que lhe destrói a alma.
Todos querem que essa estrutura seja uma casa amiga, um poiso de bem- -estar, uma família de bondade, um verdadeiro lar.




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