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Uma nova lei que dignifica Portugal

Com as atenções mediáticas voltadas, quase exclusivamente, para a débil situação económico-financeira do País, passou como gato sobre brasas a aprovação, na Assembleia da República, em 12 de abril, de uma lei que permite aos judeus expulsos de Portugal a possibilidade de adquirirem a nacionalidade portuguesa.Esta nova lei, para além de honrar o nosso País, vem “compensar” os judeus sefarditas de uma grave injustiça praticada pelos habitantes de Lisboa na aurora do século XVI.

Victor Blanco de Vasconcellos
2 Mai 2013

Os judeus “sefarditas” são assim designados por serem oriundos da Península Ibérica e que, após a expulsão de Portugal e de Espanha, se espalharam pelo império Otomano e pelo Norte de África – com uma parte substancial a refugiar-se também na Holanda, cuja comunidade manteve as suas tradições peninsulares, distintas dos costumes dos judeus ashkenazi, (como são conhecidos os judeus oriundos da Europa Central).
A injustiça a que nos referimos – praticamente ignorada pela maioria dos portugueses… – ocorreu em 16 de abril de 1506, data a partir da qual se iniciou uma inesperada perseguição aos judeus, depois de um deles ter posto em causa a existência de um “milagre” supostamente ocorrido na igreja de São Domingos, em Lisboa. Nesse dia, vários fiéis tinham-se reunido nesse templo para rezarem pelo fim do surto de peste que, desde outubro do ano anterior, assolava a capital, provocando centenas de mortos.
O cronista Damião de Góis relata que foi aí, nessa igreja, que foi visto um “sinal” a que muitos cristãos chamaram “milagre”. Outros, porém, viram apenas (diz Damião de Góis) “uma candeia acesa ao lado da imagem de Jesus”. E um deles foi precisamente um cristão-novo (judeu “convertido” ao Cristianismo por obrigação régia). Perante essa “blasfémia”, os cristãos da capital encetaram uma terrível perseguição aos judeus ali residentes, de que resultaram entre dois mil e quatro mil mortos!
Para assinalar tão terrível acontecimento, foi construído em 2008, no Largo de São Domingos, a dois passos da igreja onde a tragédia começara, um monumento em memória dos “milhares de judeus vítimas da intolerância e do fanatismo religioso” assassinados em 1506. E ao lado foi pintado um “mural” onde se pode ler, em 34 línguas, o seguinte: “Lisboa, cidade da tolerância”.
O povo português, exceto no período da chamada “Inquisição”, nunca foi anti-semita. Provou-o por diversas vezes ao longo dos séculos e, particularmente, durante a perseguição nazi aos judeus, aquando da II Guerra Mundial. Por isso, a nova lei aprovada no passado dia 12 de abril no Parlamento vem honrar Portugal e as suas raízes cristãs. Até porque nessas raízes circula muita da “seiva” do Judaísmo. E esta nova lei demonstra, também, a “tolerância” de um Povo que sempre soube reconciliar-se com a História!




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