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O insustentável peso da verdade

Celebrou-se mais um aniversário e o povo saiu à rua. Milhares de pessoas inundaram praças e ruas, ergueram-se punhos, cravos e cartazes, uns institucionais, nem por isso falsos, outros, muitos, de gente anónima, indignada, clamando o retorno daquela clara madrugada que pôs fim à noite escura do antigo regime. Naquele remoto 25 de Abril nasceu a certeza de dias melhores, a esperança num futuro risonho desatou a crescer vicejando conquistas e certezas. O que hoje chamamos, apesar das conotações pejorativas que entretanto grassaram, direitos adquiridos. E é em nome desses direitos, reorientados e esfumados, que o povo se arroga o dever se fazer ouvir.

Maria Helena Magalhães
1 Mai 2013

E uma vez mais mostrou o quanto repudia a austeridade parcial do actual Governo, forte com os fracos e fraco com os fortes. Há muito que vinha sendo assim, o capital enconchado nos centros de decisão, os (des)governos de desmando em desmando, quais marionetas enfunadas, e o deixa-andar-que-é-lá-com-eles foi-se espraiando, perigosamente. Até que um dia, basta! E esse dia chegou e o povo aceitou. E votou. E nasceu uma maioria que deu ao povo um novo governo. Um governo que disse ao povo que abril era coisa de gente rica, e quer-nos pobres, à medida das nossas possibilidades. E o povo começou a ser esmifrado, entalado entre o proclamado equilíbrio das contas públicas e o sorvedouro do défice, público. E as públicas mordomias impávidas e serenas. E o dinheiro público que nunca chega para os gastos consagrados (saúde, educação, segurança social) mas que sobra para jogos de roleta, chamam-lhes swaps, e deu azar, e em vez de lucro veio prejuízo, e do grosso. E o muito mais que fica por dizer. Então o povo, já tarde,  tomou consciência, refutou a léria do pobres-mas-honrados, do antigamente, e veio “para a rua/Gritar.” – Zeca Afonso. E a “Grândola” ecoou por esse país fora. Foi o  25 de Abril do povo.
Todavia a comemoração oficial correria na Assembleia da República, trajada a preceito, de cravos vermelhos vestida, perfiladas as individualidades, com marcadas ausências, nos lugares destinados, os deputados aprumados nas bancadas, os mais altos magistrados da nação presidindo, tudo a postos para a cerimónia evocativa. Os discursos sucediam-se solenes, alguns cuidados e acutilantes, outros mais de circunstância, não menos cuidados porém, mas o momento alto, dizia-se, enigmaticamente, seria o de Cavaco Silva, presidente da república figurado. Ora, quem paga adiantado é mal servido, diz o ditado. E Cavaco, sério e sisudo, desancou mais ou menos a torto e a direito, nem a troika lhe escapou, nem a união europeia foi poupada, elogiou uns sucessos do governo e deu-lhe uns abanões, que passaram despercebidos, e rachou de alto a baixo os protestos da oposição(!!??). E na tribuna um vaso de cravos caiu de roldão. Como de roldão caíram as espectativas de quem esperava ver este presidente entrar em acção, ele que é adepto da magistratura de influência – jogos de sombra por detrás do biombo.




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