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O Governo e a fábula de La Fontaine

Conhecemos a história das vizinhas Formiga e Cigarra. A primeira, pela labuta e pela previdência, a segunda pela alegria, despreocupação e desregrado aproveitamento do momento. Serviu objectivos pedagógicos, educacionais, mas também políticos. Recordo-me de ouvir alguns profissionais da oratória a usá-la, há bem pouco tempo, para explicar a situação a que o país chegou. Sabe-se hoje, à luz de novas descobertas científicas, que as formigas têm fraco desempenho quando estão isoladas. Talvez por aqui se explique o comportamento do Governo. Em termos de produtividade, é sempre preferível a formiga à cigarra. Mas é preciso não ser fundamentalista.

Luís Martins
30 Abr 2013

O Governo tem estado só. Começou assim e assim vai continuar, apesar de nos últimos dias ter tentado a aproximação. Sem êxito. Por tardia e já com todos a desconfiar. Mas posso ter sido enganado pelos estudos, tal qual Reinhart e Rogoff
enganaram Gaspar e outros seguidores com as conclusões retiradas da folha de cálculo que agora se sabe gatada. No entanto, de uma coisa tenho a certeza: não estou aqui para enganar ninguém. Digo o que me vai na alma, digo as palavras que vão saindo de improviso – controlado, claro, porque as escrevo e posso apagar –, às vezes arriscadas, mas, ainda assim, as que sinto.

A conhecida fábula, inventada ao que parece por Esopo (séc. VI a.c.), que se tornou famosa com La Fontaine (séc. XVII), foi narrada por outros escritores e poetas até que a ciência a recontou recentemente, quase pondo em causa a moral original. No Diário de Notícias da última sexta-feira, dia 26 de Abril, no rescaldo da Festa da Liberdade, pode ler-se que estudos levados a cabo por cientistas suíços sobre formigas concluíram que “a espécie [formiga-doceira] apenas se estrutura segundo necessidades colectivas e que quando estão isoladas são inactivas”. Trago-a aqui (à fábula) por ter direito ao contraditório.

A fábula tem sido enunciada pelos políticos da nossa praça para relevar quem produz e faz pelo país e censurar quem esbanja no tempo de abundância e tem colocado os concidadãos à rasca. As últimas descobertas ao nível da sociologia das formigas permitem fazer uma ponte com a actual realidade do país e perceber, por analogia, porque é que Portugal se afunda, as previsões não se concretizam – a realidade tem sido sempre pior do que as estimativas – e a pobreza começa a alargar-se e a extremar-se. Posso estar enganado, mas arrisco dizer que talvez seja por causa da solidão do Governo. Quase ninguém duvida que o Executivo não tem já apoio genuíno de quem lhe tem dado a cobertura necessária para se manter em funções. Está só desde, pelo menos, a altura em que quis que os trabalhadores pagassem uma parte da taxa social única que é devida pelas empresas. E desde aí, nunca mais recuperou. Enferma, hoje, de um desempenho sofrível, impróprio de quem um dia quis ser uma referência positiva para o país. Ficou só e perdeu-se. Tal qual o que acontece com as formigas: sem uma rainha a marcar o ritmo dos movimentos dentro, fora e pelos túneis que ligam o formigueiro ao exterior, a colónia não funciona, não tem o desempenho que dá sentido à história que perpassou o tempo desde Esopo até hoje. E todos sabemos que a solidão desespera e exclui. E mata. Talvez seja, por isso, que o Governo está a morrer aos bocados. Pelo menos, todas as vezes que insiste naquilo que ninguém aceita, por não ser uma necessidade colectiva e não estar a dar resultados.

Quem também está a ficar isolado é o Presidente. Evidência recente: o discurso no Parlamento nas cerimónias do 25 de Abril de 2013. Foi a primeira vez, que me lembre, que um discurso só agradou a uma parte. Antes, as mesmas palavras tiveram sempre significados diferentes consoante a área política de quem as comentava. Desta vez, houve unanimidade. Todos interpretaram no mesmo sentido, o que pode ser perigoso. Mas, posso estar enganado, como parecem ter sido os casos de Esopo, La Fontaine, tantos outros, Gaspar incluído.




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