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Injeção atrás da orelha

Os velhos teimam em viver demasiado. Vivem mais tempo porque obedecem à risca às recomendações dos médicos: caminham, alimentam-se como deve ser, evitam excessos de álcool e tabaco e, por isso, vivem tanto que os governos desesperam pelos custos provenientes das aposentações prolongadas e gastos com a saúde dos idosos; contrastam com os tempos em que se era velho e venerando aos sessenta anos; mas agora vive-se para lá dos oitenta. Somos uma sociedade de macróbios; esta longevidade levanta problemas de sustentabilidade económica à segurança social e equaciona problemas económicos e financeiros aos estados.

Paulo Fafe
29 Abr 2013

Os novos, que são quem têm o dever de ganhar para os velhos, são cada vez menos e com menores rendimentos. Trata-se, assim, de um desequilíbrio social que, no dizer de Paul Wallace, provoca um “terramoto geracional”. Ninguém, na verdade, descontou para ter a aposentação que tem hoje. Nem os mais velhos, nem amanhã os que hão de ser velhos. Numas contas muito rápidas: um funcionário que tivesse descontado 11% do seu ordenado base de 1000 euros para a aposentação, amealharia, durante 40 anos de descontos, 52800 euros. Se continuasse a receber mil euros por mês de reforma, o dinheiro amealhado dava-lhe para 4 anos e 4 meses. Se descontasse 22%, dar-lhe-ia para o dobro do tempo. E estas contas são iguais para quem ganhe mil ou dez mil euros de vencimento. Se quisermos complicar estas contas com juros, depreciações, atualizações, aumentos, inflações, a coisa em vez de dar para mais, certamente daria para menos. Por isso, quando o primeiro-ministro acusa os aposentados de não terem descontado para as aposentações que têm atualmente, tem razão, só que se esquece que a aposentação será sempre um ato de doação. Por isso não tente atirar gerações contra gerações porque por muito velha que seja a história do pai repartir a manta com o filho que o levara ao cimo do monte para ali o deixar morrer ao desamparo, sempre chegará o dia em que também ele dela precisará; a não ser que façam como o clínico da junta médica do Barreiro que aconselhou uma senhora de idade a suicidar-se porque “era menos uma na segurança social”. (programa, Júlia Pinheiro, 11/01/2013). Fica a gente sem pinga de sangue só de ouvir uma coisa destas, mas o que ainda resta de estupefação chega para ferver de raiva; a insensibilidade para com os idosos repercute-se em gritos de indignação que ecoam pelas quebradas da ingratidão. Os aposentados de hoje já trabalharam para os aposentados de ontem. E não choraram os contributos que lhes deram ou tiveram um só momento de hesitação porque tiveram princípios de solidariedade e gratidão que hoje vejo diluídos num relativismo árido e seco de alma. Politicamente têm sido considerados corpos sem força mas já são tantos que começam a pesar nas percentagens eleitorais. Quando se passa a responsabilidade de pagar as dívidas das crises à custa dos aposentados, tomem consciência que não só se trata de um esbulho humanista como de um erro político. Se há pouca gente a trabalhar para pagar as aposentações justas e confiadas na honorabilidade do estado português, sabemos também que há tecnologia que sobra para produzir por seus meios, o que o braço trabalhador já não supera. O que não vale, é atirar novos contra velhos. Se os não soubermos educar para a solidariedade geracional, o melhor será mandar dar uma  injeção atrás da orelha de cada idoso, como se dizia que os comunistas faziam aos velhos, da velha Rússia. Já agora vejam se os matam com meia injeção para ficar mais barato à segurança social.




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