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Para onde foram as cores?

Vou a descer a rua e penso tantas vezes nisso. Parece que está tudo mal porque nada daquilo é suposto. Que é como se fosse tudo estranhamente desadequado, ligeiramente amargo e que, por mais borboletas que adornem as paredes, por mais bonecada que enfeite o bolso da bata, por mais palhaços a deambular pelos corredores… não me enganam: tudo isso é para nos distrair a nós, adultos. Porque aqueles miúdos simplesmente não deviam estar ali. Não é suposto… um hospital pediátrico.

Frederica Vian Costa
28 Abr 2013

Vai-me desculpar, eu sei que para além de ser cliché ainda deve estar a pensar qualquer coisa como: “ai filha, venho eu para aqui ler coisas agradáveis e agora resolve-me dizer que descobriu hoje como sofrem as criancinhas”. Caro leitor: desculpe. Eu estive mesmo para não vir porque tem-me custado muito. Vir aqui implica alguma imaginação, implica algum esforço da minha parte por lhe contar coisas giras, divertidas, que descansem a sua cabeça. Mas é que ultimamente ando por ali a ver borboletas a mais nas paredes. Ou simplesmente vagueio por ali (sim é isso, parece que vagueio). Vagueia o meu corpo, porque a cabeça nunca esteve tão focada. E é inédito: esgoto-me na doença, no mecanismo, nos factores de risco, nas manifestações clínicas, na fisiopatologia, na molécula, no prognóstico, no tratamento. Em suma, em tudo, menos no miúdo. Sobra-me pouco. Sugam-me a imaginação, as forças e saio de lá esganada de fome ou de qualquer coisa que me parece ser fome.
Acima de tudo, tem sido perceber o que eles acham de estar ali: a Rosa, pequenita, que entra na sala de espera onde as luzes estão acidentalmente apagadas e pergunta à mãe: “Mamã, para onde foram as cores?”
Ou o Filipe, no internamento, em calções de pijama e estetoscópio ao peito, que espreita para um quarto da enfermaria onde estamos (um bando de pseudo-médicos) a observar um doente e pergunta do alto dos seus 4 anos: “há aqui alguém doente? É que eu sou um médico.” Afinal, que sítio melhor para brincar aos médicos que no próprio hospital? Doutor, não se preocupe, tudo controlado por aqui.
A Rita: “mostras-me o teu sinal na barriga?”. “Não, porque tenho cócegas”. “Mas eu não faço cócegas, prometo”. “Nããããooooooo….!”. E pronto.
Ou a Jacinta, que morreu ali às 22h30 do dia 20 de Fevereiro de 1920. “Se os homens soubessem o que é a eternidade, faziam tudo para mudar de vida”.

Se os homens soubessem o que é a eternidade não tinham medo de entrar num hospital pediátrico. Não inventavam palhaços para se distrair. Nem desenhavam borboletas nos corredores (a fingir que voam, a fingir que são livres). Se o leitor e eu soubéssemos… ali, naquelas paredes, a descer a rua, em qualquer sítio…




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