Fotografia:
Com fama de santidade

No dia 18 de Abril, com uma sessão comemorativa do 80.º aniversário da sua morte, presidida pelo Arcebispo Primaz, a Diocese de Braga prestou homenagem a Bernardo de Vasconcelos, um jovem estudante que viveu e morreu com fama de santidade. Foi um gesto louvável, mas com reduzido impacto nos jovens estudantes, quando seria de esperar o contrário, pois Bernardo distinguiu-se, no seu tempo, como dirigente estudante no CADCD de Coimbra. E não teve impacto porquê? Porque não se reconhecem na imagem que dele é transmitida.

M. Ribeiro Fernandes
28 Abr 2013

Experimentem apresentá-lo aos jovens de capa e batina em vez de vestido com hábito beneditino; experimentem também apresentá-lo como ele foi, um líder estudante que se assume como cristão e é respeitado por todos… e vejam como vai ser diferente a reacção. Depois, um outro aspecto, que é muito importante: quando ainda estudante de Coimbra, ele já era conhecido pelos colegas como “santo”, antes de querer ir para o convento… Um santo não pode ser tratado como uma figura de cera.

1. O Bernardo era um jovem como outro qualquer. Com projectos de vida e com paixão de viver; teve uma namorada e queria constituir uma família; queria ingressar na Marinha, mas a saúde não lho permitiu; pensou em seguir a carreira diplomática, mas optou pelo curso de Direito como o pai, com quem muito se identificava; um jovem apaixonado pela vida, como qualquer jovem. Só foi melhor do que qualquer outro na ascese pessoal e no sentido que deu a esse aperfeiçoamento na intimidade da sua fé. Mas, esse sonho de vida cristã aprendeu-o na vida familiar, na vida comum e manteve-o como estudante em Coimbra. E isso não fez dele um estranho para os colegas. Quando deixou Coimbra, os colegas vieram despedir-se dele, estendendo as suas capas negras no chão para ele passar. Porque é que os estudantes de hoje não fizeram o mesmo?

2. Era, por modo de ser, um delicado perfeccionista da vida interior. Sempre à procura do seu ideal de perfeição, o que o tornou um poeta místico. Neste seu idealismo de perfeição e seguindo os padrões da época, já estudante de Direito em Coimbra, quis tornar-se beneditino (chegou a fazer votos iniciais, mas a doença não lhe permitiu continuar). É preciso contextualizar essa escolha num tempo em que só a vida religiosa era tida como escola de santidade. Nessa época, dificilmente se imaginava que alguém pudesse ser reconhecido como santo se não fosse clérigo ou religioso. Hoje, essa mentalidade está a mudar e os ventos de renovação cristã trazem mensagens da Igreja primitiva, que o Papa Francisco tem procurado realçar.

3. Não se pretende minimizar o papel das instituições religiosas, que são escolas de ascética, com sabedoria e méritos reconhecidos; mas, hoje, é preciso sublinhar que a base da santidade é ser cristão, para a qual todos têm vocação. Quaisquer outros caminhos particulares servem apenas para a realçar ou personalizar, mas nunca para a substituir. É isto que é preciso realçar em Bernardo de Vasconcelos, como ícone para os jovens, uma personalidade tão simples e tão profunda, tão humana e tão delicada que todos podiam ver, através da sua humanidade e da sua fé, a beleza do Homem Deus.
A esse respeito, o Cardeal Cerejeira, que com ele conviveu em Coimbra, onde um era aluno e o outro professor, disse que  Procurou cultivar essas qualidades humanas na vivência da fé: a delicadeza de sentimentos, aliada a uma forte determinação de vontade; a amizade, a compreensão, a tolerância; a abnegação e a dedicação, esquecer–se de si para se preocupar com os outros e ter sempre uma palavra de conforto para os seus problemas, mesmo quando o seu sofrimento já era muito grande…
Imagino como o Papa Francisco, que tão bem tem falado e testemunhado a qualidade humana na ternura da fé (a confiança básica da fé), ia gostar de conhecer a sua história de vida…




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