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Cantar Abril, (lado “b”)

A imagem de um cravo rubro e viçoso plantado por uma criança no cano de uma arma G3, que inundou o país e o mundo como exemplo de uma revolução pacífica, ao som de cânticos e “slogans” alusivos ao 25 de Abril da democracia, da liberdade e da justiça social, deram lugar aos “punhos” e às “setas” de um folclore ao jeito de um vira minhoto que vai de roda e desde aí se alternam no poder. Partidos esses que, embora aguentando o ruído de fundo da “cassete” de alguma esquerda agarrada aos movimentos operários do século passado, desfasada das actuais realidades políticas, sociológicas e civilizacionais, foram subvertendo os princípios, que presidiram a tão prodigioso feito.

Narciso Mendes
28 Abr 2013

Hoje, da “liberdade” há o medo de se perder o emprego, ou de o não conseguir; da “igualdade”, existe um assinalável fosso entre ricos e pobres, públicos ou privados; da “fraternidade”, constam as contendas na luta pelo poder, bem como os disparos verbais ofensivos à dignidade opinativa, de quem se exprime livre e democraticamente.
A “paz”, elegeu o egoísmo como principal mediador nas contendas político-partidárias, graças ao discurso ideológico que cada um adopta; o “pão”, que alimenta as massas, mas também as necessidades adstritas à sua sobrevivência, também já vai faltando a muitos; a “habitação”, que vai perigando com a ausência de rendimento, para a pagar ao banco ou ao senhorio, pela falta de emprego, perspectiva a angústia nas pessoas de se verem na rua, tal como os sem-abrigo; a “saúde” que, de taxa em taxa e corte em corte, vai inibindo os cidadãos de a ele aceder, pelas suas dificuldades económicas, subverte o SNS; e finalmente a “educação“ onde foram desperdiçadas energias em constantes pressões para afastarem o símbolo máximo do povo de Deus das escolas onde, com essa ausência, se vão perdendo valores tradicionais, a transmitir aos jovens, para uma vida, com abundante riqueza espiritual e educacional, os quais fortaleceriam as famílias pela fé.
Uma democracia que se foi permitindo ser permeável à corrupção, ao clientelismo e aos lugares para os boys partidários; que transferiu o poder de um povo, que diziam ser quem mais ordena, para os bancos, grandes grupos económicos e especuladores financeiros; que deixou ao seu livre arbítrio as decisões dos financiamentos aos investimentos, acabou por deixar a economia do país em sucessivos estados recessivos e à beira da bancarrota. Por isso, hoje como nunca, José Afonso, símbolo máximo dos cantares de Abril, se encontra actual com os seus celebérrimos “vampiros”, para reclamar daqueles que, à custa dos impostos que o povo paga, “comem tudo e não deixam nada”.
«Esta parte, aquele parte e todos, todos se vão», cantava Adriano C. de Oliveira sobre aqueles que nos anos 60 emigravam, continuando a ser uma, actualíssima, “ode” alusiva à recente vaga de jovens, (licenciados que o país paga), que emigram. E se lá na Diáspora, perguntassem “ao vento que passa” notícias do seu país, certamente que o vento não calaria a desgraça a que chegou Portugal. É que cá, “a foice da ceifeira de Portugal” foi substituída pelo subsídio de desemprego de longa duração, do RSI ou da baixa.  
Mas, estranhamente, os sentimentos do sonho e da utopia que inspiravam os “baladeiros”, de há 39 anos, se foram esbatendo, com a proliferação da música “pimba”, da qual resultou a “pimbalhada”, cujos conteúdos brejeiros roçam a pornografia, os quais fariam arrepiar-se de indignação os mais consagrados e, quiçá, ousados poetas revolucionários como Ari dos Santos.
Foi graças ao, paulatino, extirpar das conquistas de Abril, que surge o lado ” b”, de um cantar que nada tem a ver com os desígnios de “Grândola,” que deu a senha ao movimento dos capitães em 25 de Abril de 1974, do qual se salvaram alguns valores democráticos, (tão sublimemente entoados), numa elegia a um povo a quem resta a descrença nos políticos, de “aviário”, que deles se vão servindo.




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