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Um olhar em redor

A característica principal de um chefe de Estado democrático, seja ele um rei ou, principalmente, um Presidente da República, é o chamado poder moderador. Dito de outra forma, ser árbitro perante as várias facções. Porém, um árbitro é também aquele que resolve questões, que toma decisões dentro dos limites que a Constituição lhe confere, não se limitando, por conseguinte, a sugerir, a propor medidas ou a lançar alertas no tocante àqueles assuntos que ele próprio entenda serem de capital importância para o país, o mesmo será dizer para as diversas camadas da população. Foi para isso, ou nessa convicção, que o elegeram.

Joaquim Serafim Rodrigues
27 Abr 2013

Ora, aparecer regularmente na televisão (refiro-me agora ao nosso caso) preconizando um amplo consenso político envolvendo governantes, elementos da oposição, principais partidos com assento parlamentar, além daqueles organismos ou associações (sindicatos, etc.) com maior ou menor peso em questões de natureza social e, depois, perante uma crise sem precedentes, já nos limites do suportável, recolher à sua “torre de marfim”, ou seja, ao Palácio de Belém, sem intervir e, pior ainda, considerar que este Governo reúne todas as condições para levar por diante o seu mandato quando os respectivos ministros, incluindo o seu chefe, já nem à rua podem sair senão protegidos por fortes medidas de segurança tais os insultos (que reprovo) e a fúria das multidões que os aguardam, desalentadas, desesperadas, tal a penúria que suportam sem outra perspectiva tendente ao seu alívio, antes sufocadas por tanta e tamanha austeridade, esta atitude do Presidente, dizia, assume contornos de uma insensibilidade perversa.
Todos aqueles que se vêem obrigados a sobreviver com pensões de miséria, situação degradante que leva, alguns deles, ao suicídio (nesta Europa em desagregação somos, apesar disso, os primeiros em quase tudo o que é sinónimo de atraso), toda essa gente, os milhares e milhares de desempregados, os velhos abandonados à sua sorte, os doentes sem recursos e sem esperança, as crianças desamparadas, pois até elas Senhor!, são vítimas deste descalabro governativo.
Ao escolher-se um Presidente da República ele será (ou devia ser) o rosto do país onde vivemos e a nossa escolha o espelho dos nossos desejos. Tem sido assim? Claro que tem – mas apenas em relação à primeira parte deste novo parágrafo, a qual encerra tudo quanto há de mais negativo e esse rosto do país, indesejável, insustentável, se não ficar melhor muito se deve à sua inércia.
Vou citar aqui, a propósito de tudo isto, aquilo que já nos ensinava no século XVII o Padre Manuel Bernardes: “Muitos não temem entrar em lugares altos, sem os talentos precisos para o seu manejo. É que fazem conta, não de igualar com as suas diligências as obrigações do ofício, senão de fazer à boamente o que souberem e o que quiserem; e onde não alcançarem com o préstimo, não tomar por isso moléstia. Deste modo bem pode um qualquer moço de servir tanger o órgão, levantando-lhe somente os foles e soe como soar”.
Será que este nosso povo, generoso, inconfundível, humilde, sofrido, simples, não merecia melhor?…




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