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É difícil mas não impossível

Pelo que se sabe através da profunda, metódica, selecionada, ativa e persistente informação que o mundo fornece, foi o século passado (XX) distinguido do anterior no que respeitou aos grandes progressos existentes, tais como eficientes e oportunos medicamentos para grandes e raras doenças, embora qualquer um possa morrer sentado em casa à espera de consulta ou duma cirurgia; as mais sofisticadas máquinas individuais e coletivas que foram e têm sido o grande espanto da humanidade; os passarões que cortam os ares, fazendo do mundo coisa pequena; a ida à lua e todos os avanços contínuos neste século a caminho de Marte, mas, morrendo milhares pela fome ou pelas balas e bombas de guerra; os computadores e todo o género de comunicação – mesmo que hipócrita ou censurada – fizeram e têm feito a era dos tempos atómicos, da eletrónica avançada, a era dos tempos espaciais.

Artur Soares
26 Abr 2013

Já se fala no prolongamento da vida humana até aos cem anos ou cento e vinte, embora se pratique o aborto esventrando as barrigas nas oficinas da morte; que aparelhos de vários tamanhos e cada vez mais sofisticados substituirão o trabalho humano, mesmo que crie desemprego e por causa deste, fome, assaltos, violência física ou psíquica; que serão apenas necessárias meia dúzia de horas para fazer transportar um medicamento vindo do espaço e, enfim, este nosso século, com raízes do anterior vai ser de arromba, de felicidade total!
Sem dúvida que, a ser assim, o progresso galgará montanhas e vales que será derramado nos cantos do mundo e, então, vivas a estes dois séculos!
Perante tanta maravilha que veio e há de vir; perante tanta esperança que reina nos corações, principalmente nos corações europeus, acreditemos que se os mortos cá voltassem pasmavam de morte por tudo que a humanidade possui e à borla.
Mas sejamos justos, povo do meu país! Portugal já fez tanto e bem feito pelo bem da humanidade, que só a história pode confirmar. Pode e deve confirmá-lo, uma vez que ainda hoje nos pagam por tudo, o concretizado.
Apenas nos últimos tempos temos descansado, mas uma ou outra vez, o sangue das nossas veias ferve ou explode e vão surgindo uns descobridores que mostram bem da raça e da fibra que somos feitos. Refiro-me concretamente à última descoberta no país, ainda no tempo do Império Português, daquele líquido que extraído da casca dos eucaliptos e da sua polpa – então chamado metanol – substituiria a gasolina.
O metanol afirmou o (nosso) então descobridor/cientista, avisou os altos responsáveis políticos, capitalistas, administradores – embora sem curso – e potentes empresários com sabedoria, que, se industrializadas aquelas matérias eucaliptais fornecidas pela Natureza, se podia fabricar gasolina ao preço do atual meio cêntimo, sem provocar qualquer género de poluição, e que faria de Portugal uma das grandes potências gasolináceas da Europa, sem se precisar da gasolinagem de Angola ou de outros.
Depois, já no verão escaldante de l975, havia de surgir outro cientista, também dos nossos, claro, afirmando e desafiando o mundo inteiro que do lixo que as pessoas têm e fazem, se podia obter um carburante de grande utilidade para as comunidades de todo o planeta.
Ora eu, perplexo, estupefacto, quase gago com descobertas de tal monta, informei e afirmei no meu ambiente que, vivendo nós num dos pontos mais estratégicos da Terra podíamos ser, porque temos jeito, dos principais exportadores de lixo fosse ele qual fosse. E deram-me razão!
Do metanol não, acrescentei convicto. Porque é sabido por toda a Europa que somos grandes incendiários de matas e pinhais; o metanol seria reduzidíssimo, uma vez que o nosso fogo-posto não tem ordem, não tem horários, nunca foi disciplinado; e que nem temos uma universidade de pirologia para licenciar incendiários, verdadeiros profissionais, depois, para o fogo-posto. E deram-me novamente razão.
Quanto ao nosso lixo, verdadeira fonte de riqueza – pois basta ver que até o querem privatizar, bem como a água, por mando dos troikanos – atualmente é dos melhores do mundo, cheira quanto basta e pode ser recolhido não só pelas ruas da cidade como por várias instituições existentes.
Temos o lixo das leis que privilegiam os políticos da nossa praça; o lixo das taxas e dos saques em prol do riquismo selvagem; os despachos que nomeiam assessores de assessores para os superlotados corredores dos ministérios; temos o lixo da traição e da fuga efetuado por certos cientistas; temos o lixo da fabricação de pobres dos governos de Sócrates e de Passos Coelho e, enfim, somos um povo com uma infinidade de virtudes que o Mundo, de nós, não se cansa de analisar e apontar.
Assim, industrialize-se o lixo para não sermos lixados, isto é, ultrapassados.
É difícil, bem sei, mas não é impossível.




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