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Alpoim Calvão

Li com muito interesse o livro de Rui Hortelão, Luís Sanches de Baêna e Abel Melo e Sousa, «Alpoim Calvão – Honra e Dever». Permitiu-me conhecer a personalidade de Guilherme Almor de Alpoim Calvão, um dos principais protagonistas da História de Portugal das últimas  décadas do século passado e o oficial mais condecorado da Marinha Portuguesa. Só nele tinha ouvido falar por ocasião do cerco ao Seminário de Santiago, em 4 de outubro de 1975.

Silva Araújo
25 Abr 2013

O livro, de mais de 600 páginas, permitiu-me conhecer pormenores da chamada guerra colonial, muito particularmente no que se refere à então província ultramarina da Guiné, com particular destaque para a operação «Mar Verde», que conduziu à libertação de 26 portugueses (um civil e 25 militares, entre os quais o sargento aviador António Lobato) detidos na prisão La Montaigne, na Guiné-Conakry. 
Permitiu-me conhecer o rigor e a dureza da disciplina militar.
Permitiu-me conhecer pormenores da Revolução do 25 de Abril de 1974 e do que se lhe seguiu. Da odisseia de Alpoim Calvão, um dos nomes da lista de personalidades a abater na anunciada (mas não concretizada, felizmente) «Matança da Páscoa», o que levou a que aquele marinheiro tivesse de se refugiar, primeiro em Espanha e depois no Brasil.
Forneceu-me informações sobre o MDLP – Movimento Democrático de Libertação de Portugal, oficialmente formado em 5 de maio de 1975 e encerrado em 29 de abril de 1976, que se propunha «impedir a instauração de um regime comunista ou de ditadura militar marxista em Portugal» e «criar as condições para a implantação de um sistema democrático pluralista e livre».
Um dos capítulos do livro, intitulado «A infâmia», refere atrocidades cometidas, após a chamada «descolonização exemplar», contra naturais da Guiné que, durante a dita guerra colonial, como portugueses que eram, haviam integrado as Forças Armadas portuguesas ou constituído as milícias que, lado a lado com as tropas metropolitanas, tinham combatido os movimentos subversivos.
Nas negociações conducentes ao acordo que levou à independência, o destino destes homens não foi devidamente acautelado. Em consequência disso centenas de militares e cidadãos portugueses africanos foram «vilmente chacinados, fuzilados na solidão das matas ou em espaços públicos, acabando por jazer em valas comuns». Vítimas do sentimento de vingança do PAIGC – Partido Africano para a Independências da Guiné e Cabo Verde, subordinado a Moscovo e seguindo as teses marxistas-leninistas, antigos combatentes luso-africanos foram pendurados pelos pés e chicoteados até à exaustão. Outros viram–se obrigados a carregar às costas gigantescos pneus de Berliet, e as respetivas jantes.
Ao povo guineense, e muito particularmente aos antigos combatentes luso-africanos, que sobreviveram, vem Alpoim Calvão prestando considerável ajuda desde 1986, como se lê no capítulo «Por uma Guiné melhor», o que o General Carlos de Azeredo exalta no prefácio do livro.
Penso serem de saudar todos os contributos para que se faça a verdadeira história do que foi o último meio século de vida portuguesa. E escrevo verdadeira porque, sem pretender fazer juízos temerários, estou persuadido da existência de muitos factos que estão por contar e bom seria que chegassem ao conhecimento da generalidade dos cidadãos.
É uma opinião minha, mas persuadido estou também da existência de factos trazidos a público segundo o que mais interessava aos seus protagonistas ou à ideologia por que se orientavam.
Sem pretender ofender ninguém, pode ter acontecido de a perspetiva do narrador ou os interesses dos intervenientes terem conduzido a que se contasse apenas o que convinha ser contado e como convinha ser contado. Como a verdade nos libertará, não há como conhecer a verdade verdadinha.




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