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A Dialética, o Espelho de Hegel

Tenho à minha frente um osso duro de roer. O osso, extraído da complexa carcaça filosófica de Hegel (1770), é o espírito da dialética. Ao roê-lo, temo partir alguns dentes ou engasgar-me. Por ele já passaram muitas línguas gulosas e muitos dentes a roeram. De um lado, o osso é lambido pela língua da mente, como estrutura da realidade; do outro lado, é lambido como estrutura do pensamento (ser é pensar e pensar é ser, diz Hegel). Afirma ainda: “A dialética é, simultaneamente, o princípio e método do desenvolvimento de toda a realidade e esta é a fonte da atividade. A dialética, como método, é o tormento do espírito. É dinamismo, contestação, mudança. É vida, contradição, superação, desbloqueamento e fecundidade. É a lógica da unidade dos contrários e o repúdio dos niilismos. O método, como estrutura, manifesta-se nestes três passos: tese, antítese e síntese. A dialética é a lei do mundo e da razão que domina o mundo”.

Benjamim Araújo
24 Abr 2013

O objetivo, que Hegel pretende atingir através da dialética, é afastar da vida político-social do homem, a desunião, a falta de liberdade e a rejeição; a exclusão, a marginalização, contradição e a alienação. Positivamente falando, tem por objetivo a unificação do múltiplo, a conciliação das oposições, a pacificação dos conflitos, a superação e a redução das coisas à ordem e à perfeição do todo.
Para Hegel, o fundamento da filosofia é o ser real na sua totalidade. Contudo, para que seja verdadeiramente real, tem de ser objetivo, universal e ativo nas suas diversas diferenças. Esta atividade é pensamento. Logo, pensar e ser ou ser e pensar identificam-se. E, como o universal está no conceito, a realidade está no conceito. Deste modo, o conceito é a realidade, é o princípio do mundo, a essência das coisas, o ser absoluto e divino. O conceito, diz ainda Hegel, desenvolve-se, dialeticamente, através dos contrários. Foi com esta afirmação, que comecei a engasgar-me e a tossir.
Como é que o conceito se identifica com a realidade, se esta supera o conceito? Se o conceito é a manifestação, na nossa mente, da semelhança da realidade empírica (o fenómeno) espacializada e temporalizada, como pode o conceito dar à luz o que está fora do espaço e do tempo (o transcendental e o transcendente)? Como pode dar o que não tem?
Na minha opinião, o real, para ser verdadeiramente real, tem de ser objetivo, autónomo, singular e aberto à mente (pensamento e conceito), à meditação, à intuição e criatividade.
Onde está explícita na dialética hegeliana, a pessoa, com as suas reações, estados, gerências, motivos, emoções e sentimentos?
Com fundamento nas afirmações de Hegel sobre a dialética, vou servir-me da existência da realidade para, concretamente, evidenciar a superação (o desenvolvimento de uma nova realidade). Vou apoiar-me nos três passos do método dialético de Hegel. Considero:
Tese (a existência); antítese (a não existência); síntese (a união da existência com a não existência). Desta síntese brota a superação, isto é, a nova realidade (a transcendental). Esta realidade é o nosso autêntico ser, uno e idêntico a si mesmo. Supera toda a realidade existencial, sem excluir e menosprezar os seus contrários.
Afirmo ainda: – Tese (o transcendental); – antítese (o não transcendental); – síntese (a união do transcendental com o não transcendental). Desta síntese brota uma nova realidade (o transcendente, Deus, que tudo supera, nada desvaloriza e nada exclui).
Há uma dialética que conquista a globalidade de toda a minha pessoa: Tese (a reflexão e a ciência); antítese (a meditação e a sabedoria); síntese (a união dos contrários). Desta síntese brota uma nova e fecunda realidade, a humana, que tudo supera e nos encaminha para a salvação em Deus.
Hegel, concomitantemente à superação, evidencia a necessidade da globalidade (para onde converge toda a pluralidade), para evitar a alienação das partes envolvidas. É o uno da nossa autêntica natureza que, categoricamente, impõe a globalidade.
Relativamente à superação e à globalidade, nada mais tenho a fazer senão colocar, no punho de Hegel, o facho ardente da imortalidade.




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