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Celebrar Abril na “corda bamba”?!

Prestes a entrarmos no quadragésimo ano da “era de abril”, não será excessivo refletir sobre o caminho percorrido. Muito mais do que exaltar uma data, é necessário ter a coragem de aprender com os erros do passado e deles tirar os ensinamentos para não os repetir. Principalmente nos tempos que correm em que estamos temerosos na “corda bamba”. Sim, porque na generalidade vivemos o presente em equilíbrio periclitante, temendo a cada instante uma queda de efeitos inesperados.

J. M. Gonçalves de Oliveira
23 Abr 2013

É importante e necessário celebrar a “revolução dos cravos” por tudo que trouxe de novo aos portugueses, fundamentalmente pelo despertar da liberdade e permitir cortar as amarras com um passado de pobreza e de analfabetismo. Se mais não tivesse possibilitado, estas conquistas seriam suficientes para festejar a data que recordaremos dentro de dois dias.
Ao lembrar um passado ainda muito presente, não devemos deixar de escrutinar o caminho percorrido, porque também nele poderemos encontrar algumas das razões para o estado em que hoje nos encontramos.
Um simples exercício de memória reportar-nos-á aos últimos anos da “primavera marcelista” e logo constatarmos como foi funesto para Portugal não ter sido possível fazer a transição para a democracia sem revolução. Teria sido evitável a primeira grande destruição do aparelho produtivo nacional, no período que mediou entre 11 de março e 25 de novembro de 1975, e a descolonização poderia ter acontecido em moldes bem diferentes. Anos mais tarde, com o abraçar do projeto europeu, testemunhámos um longo período de deslumbramento. Foi o abandono dos campos, do mar e a aniquilação da indústria pesada que nos restava. O encanto das grandes obras realizadas com o dinheiro dos fundos comunitários provocou nos portugueses um delírio coletivo. Dizia-se por esses dias que o futuro de Portugal passaria por tornar-se o albergue da Europa! Rapidamente, o país chegou a patamares de consumo incompatíveis com a riqueza produzida e o desastre adveio sem pedir licença.
Ao comemorar mais um 25 de abril, é importante recordar os heróis da madrugada desse dia marcante da nossa história e saber preservar a sua memória.
Em tempo de penúria e de submissão faz todo o sentido analisar as razões de tantas privações e voltar a pugnar pela independência perdida. Mais do que nunca, é necessário ousar percorrer o caminho que nos liberte do jugo estrangeiro para novamente sermos donos do nosso próprio destino. Por isso, é fundamental não adiar por mais tempo a chegada dessa nova liberdade.
Os portugueses, na “corda bamba” que o rol de inquietações e de incertezas vividas parece não deixar esticar, devem ser capazes de saber resistir às propostas vazias e às promessas irrealizáveis.
Na conjuntura atual é imperioso seguir o caminho que nos devolva a soberania perdida e nos livre dos credores estrangeiros. Assim, é fundamental encontrar os consensos capazes de unir a maioria dos portugueses. É nesta perspetiva que devemos saudar com efusiva esperança o reatamento do diálogo entre Pedro Passos Coelho e António José Seguro, ocorrido na pretérita semana.
Não podendo esperar muito mais da Europa que se encontra mergulhada numa crise de consequências imprevisíveis, impõe-se a todos os atores políticos que pensem no país, adiando para tempos mais propícios o cavalgar das suas salutares diferenças.
Numa envolvência de tantos equilíbrios instáveis, é tempo de todos fazermos um esforço redobrado e apelarmos para o patriotismo de cada um. No momento que vivemos não há lugar a malabarismos na corda que não podemos deixar partir. Vamos celebrar abril com esta renovada esperança!




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