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Um olhar em redor

Contando com a vossa anuência, caros leitores, deixo hoje de lado a crise, o Governo que temos e, bem assim, os seus sequazes, os quais não perderão pela demora, optando por uma inflexão de cento e oitenta graus, ou seja, mudando de tema. Li, há tempos, não sei já em que jornal (se procurar o recorte no meio dos papéis que guardo, encontro-o) li, dizia eu, um artigo que feriu profundamente a minha atenção, dado que o seu autor, um médico, afirmava no seu escrito o seguinte: “Nunca tive grande orgulho em ser português. Hoje começo a ter vergonha. Tenho vergonha de pertencer a um país vendido, usado, manipulado, servente de interesses estrangeiros”. E prossegue mais ou menos neste tom, evidenciando a sua repulsa, o seu desalento, face àquilo que julgaria ser impensável nos dias de hoje.

Joaquim Serafim Rodrigues
20 Abr 2013

Não conheço o autor do artigo a que me refiro, mas permito-me discordar do mesmo, quando ele afirma nunca ter tido orgulho em ser português – nem tem de que se envergonhar por isso. Nenhum de nós, individualmente, é responsável pelos desatinos ou pela incompetência de quem nos tem governado em certos períodos da nossa História. E já Camões, épico genial, cantava: “Não mais, Musa, não mais que a lira tenho/Destemperada, a voz envergonhada/E não do canto, mas de ver que venho/Cantar a gente surda e endurecida/O favor com que mais se acende o engenho/Não no dá a Pátria, não, que está metida/No gosto da cobiça e na rudeza/Duma austera, apagada e vil tristeza” (X, 145).
Bastariam Camões e Vasco da Gama para nos podermos orgulhar da nossa nacionalidade – para além da Língua, claro, essa “Flor do Lácio, inculta e bela, a um tempo esplendor e sepultura…” segundo Olavo Bilac. E nem vou citar aqui outros vultos notáveis, o que seria ocioso da minha parte, podendo até cometer o sacrilégio imperdoá-
vel de ficar algum de parte, tantos eles são!
Introduzo aqui, neste meu texto, uma nota assaz significativa: na câmara do capitão de corveta alemão Gunther Prien, que comandou o submarino que conseguiu penetrar na base inglesa de Scapa Flow durante a II Grande Guerra, fortemente protegida por redes de aço que ele penetrou audaciosamente numa imersão por assim dizer inconcebível destruindo, com torpedos, diversos vasos de guerra ali ancorados, figurava um retrato de Vasco da Gama…
Mas, se não os enfado, permitam-me que termine esta crónica efectuando nova inflexão, para vos falar de uma figura feminina que ficou igualmente para a posteridade, Amália! Quando cantava, usando “essa voz que Deus lhe deu” e mais nenhuma possui ainda hoje, sentimos Camões e Malhoa, podendo a mais singela melodia ganhar a imortalidade sendo cantada por ela.
Ora vibrante e comunicativa, tão próxima de nós ao cantar, por exemplo, o popular “Malhão”, ou recolhida em soberba postura, roçando o misticismo, se se tratava de interpretar como só ela sabia, sentidamente, dolorosamente, direi, o “Povo que Lavas no Rio”… Amália, no palco, a mesma sensibilidade, o mesmo rosto expressivo e dramático. Na vida, a mesma simplicidade, o seu acrisolado amor à terra que a viu nascer.
Quem leu os clássicos sabe que
se temos dois ouvidos e uma só boca é porque devemos ouvir o dobro daquilo que falamos – mas eu direi mais, é para podermos ouvir melhor Amália em religioso silêncio, e da “estranha forma de vida”.
Esperando não os ter desiludido desta vez, é tudo por hoje.




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