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Portugal, “amorfo e sem chama”

No breve relance de um olhar sobre a nossa História deparamo-nos com situações, deveras complicadas, em que à partida se afiguravam quase impossíveis de ter uma solução, ou sequer um airoso desfecho. No entanto, muita inteligência, determinação e coragem subsistiram naqueles que sempre sonharam com um país próspero, mas independente, dedicando parte das suas vidas à nobre causa de governar. Homens tivemos que serviram o país, com verdadeiro sentido patriótico, sem que dele esperassem honrarias ou fortuna. Sobretudo, nos tempos em que o trabalho abnegado e as dificuldades faziam parte de um “modus-vivendi”, para sustentabilidade de um todo a que chamamos Pátria. E que se conste, nem por se ter vivido, aí sim, com carências de toda a espécie, o ânimo deixou de ostentar-se no rosto dos portugueses, nunca perdendo a fé em dias melhores.

Narciso Mendes
19 Abr 2013

Actualmente, faltam-nos políticos realistas, sensatos, mas firmes na defesa dos interesses nacionais. Os que temos vivem na estratosfera dos interesses partidários, mediáticos e perdulários perante a coisa pública, deixando todo um povo na eminência de neles se desacreditar e aos quais vai perdendo o respeito, tais são os disparos, de vaias e insultos, com que se vão confrontando. Ora, neste contexto de crise e nas conversas políticas que rodeiam a missão da troika, temos assistido às mais variadas formas de argumentação sobre a sua actuação, sem que daí se vislumbrem sérios e objectivos resultados, devido à desqualificação que impera no universo político-partidário.
Constata-se que o povo já entendeu, perfeitamente, o porquê da realidades que motivaram as medidas a que ficou sujeito, dado o país ter as finanças arruinadas que obrigam os orçamentos a serem castigados pelo défice e dívida excessivos, provocados pela exaustão da tesouraria com supérfluas despesas, muito para além do PIB. Factores que deram origem à actual austeridade, com uma multiplicidade, inextricável, de taxas e impostos; um elevado índice de desemprego; um surto de emigração e cerca de dois milhões de cidadãos no limiar de pobreza, em que muitos serão pobres, efectivos, ao terminar este texto. De tudo isto, os portugueses sabem e sentem na pele. Daí, assistirem serenos e ordeiros ao exaltar de duríssimos sacrifícios.
Porém, só não conseguem entender o porquê dos Mexias, Ulriches, Jardins e Catrogas deste país só conseguirem viver com várias centenas de milhares de euros anuais,
enquanto outros compatriotas, já sem o subsídio de desemprego, tentam sobreviver? E se será constitucional o regime de excepção, patente no Palácio do Ratton, em que as reformas dos juízes são aos 42 anos, após uma década de descontos, enquanto o resto do povo se reforma aos 65, com mais de quatro dezenas de anos de contribuições? É que isto, parece ser apenas uma amostra do que por aí vai.
Se para além das rendas excessivas, que os cidadãos pagam, bem como as subtracções aos seus rendimentos, com cortes no Estado social, que vão sofrendo, acabassem com muitos milhões de euros gastos em milhares de mordomias que por aí pairam, engordando o Estado, o povo legitimaria tudo quanto lhes cortassem. E se em vez de discutirem moções, Governo e oposição, se autocensurassem, explicando as razões dos seus silêncios acerca dos privilégios que o 25 de Abril trouxe a alguns, ainda poderiam dissipar algum do seu descrédito.
Afinal, só faz sentido pedir sacrifícios ao povo, quando todos neles alinham, sem excepção, fazendo jus ao plano de solidariedade em curso. Só assim, se conseguirá que Portugal deixe de ser o pião das nicas da Europa, para que seja relançada, com confiança, a economia e o emprego. 
Impõe-se pois que, perante tanta imoralidade, em que tão poucos vão subtraindo o sustento a tantos, se leve à letra a palavra “equidade” e se crie um plano para pôr este país a trabalhar. É que Portugal hoje tornou-se num país amorfo e sem chama porque, sem trabalho, está depressivo, triste e pobre.




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